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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Presos policiais que acobertaram assassino do Morro do Boi

Seis são presos por montar farsa e tentar inocentar criminoso do Morro do Boi no Paraná

O Grupo de Combate do Crime Organizado do Paraná prendeu nesta quinta-feira um delegado, quatro policiais e um policial civil acusados de montar uma farsa para liberar da prisão e depois inocentar Juarez Ferreira Pinto, apontado como o autor do crime do Morro do Boi, ocorrido em Matinhos, litoral paranaense, em 2009. Um dos envolvidos é o policial civil aposentado Altair Ferreira Pinto, irmão de Juarez. Um sétimo envolvido já estava preso desde o ano passado, por outro crime, o de tráfico.

O crime ocorreu no dia 31 de janeiro de 2009. O estudante de Direito, Osíris Del Corso, 22 anos, e a namorada, Monik Pergorari Lima, 23 anos, caminhavam por uma trilha no Morro do Boi quando foram rendidos por um criminoso e obrigados a seguir para uma gruta na Praia dos Amores. No local, o homem teria exigido que tirassem a roupa. O jovem foi morto ao tentar evitar que a namorada fosse estuprada. Monik levou um tiro no quadril e ficou paraplégica.

Monik reconheceu Juarez Ferreira Pinto como o autor do crime. Para evitar que ele seguisse preso, o irmão dele, com auxílio do delegado José Tadeu Inocêncio, teria elaborado e executado um plano, plantando provas no local e fazendo com que Paulo Delci Unfried fosse preso de posse da arma usada por Juarez. Unfried chegou a ser apresentado como o "verdadeiro criminoso". Além deles, teriam participado do plano os PMs Edison Pereira, Edmildo da Silva Mesquita, Paulo Roberto da Graça e Rodrigo Alves Barbosa. Outro envolvido no caso, o policial Paulo Fideles, já estava detido desde o ano passado, acusado de tráfico.

Segundo o Grupo de Combate do Crime Organizado, o plano da quadrilha era não só apresentar Unifried como o responsável pelo crime, mas também atribuir outros roubos, cometidos por terceiros.

O grupo queria desacreditar o depoimento de Monique. O plano só não vingou porque o delegado Luiz Alberto Cartaxo Moura, que coordenava a força-tarefa da Polícia Civil, manteve a acusação contra Juarez.

Em janeiro do ano passado, Juarez foi condenado a 65 anos de prisão.

RELEMBRE: Morro do Boi: vítima mantém acusação contra homem que se diz inocente

Nem a posse da arma, nem a confissão do vigia Paulo Delci Unfried fizeram a estudante Monik Pegorari de Lima, 23 anos, mudar a convicção de que Juarez Ferreira Pinto é o culpado pelo crime do Morro do Boi. Ela e o namorado foram atacados e baleados em janeiro deste ano, em Matinhos, no litoral paranaense. O namorado Osíris Del Corso morreu e Monik sobreviveu, mas não pode andar devido a uma lesão na medula.

- Ele (Juarez) deixou eu ficar vendo tudo o tempo todo porque achou que eu iria morrer. Por isso é que eu tenho tanta convicção - disse a jovem em Brasília, onde fez os primeiros exames no hospital Sarah Kubtitscheck para tratamento da lesão provocada pelo tiro que levou no dia do crime.

Ela disse estar preocupada com a libertação de Juarez por temer que ele possa procurá-la "para terminar o serviço". Ela deu a seguinte entrevista:

Você mantém a convicção de que Juarez foi o autor do crime?

Com certeza. Fui eu que estive com ele o tempo todo enquanto ele fazia maldade com a gente, matava meu namorado e tentava me violentar. Era eu quem estava olhando para a cara dele. Sou eu que conheço o olhar, a voz, o físico, o rosto... Ele deixou eu ficar vendo tudo o tempo todo porque achou que eu iria morrer. Por isso é que eu tenho tanta convicção. Eu não colocaria uma pessoa inocente na cadeia. O que eu quero saber é por que esse cara (Paulo) confessou um crime que não cometeu. Isso é uma coisa para a polícia descobrir.

O que você acha que levou Paulo (Delci Unfried) a assumir o crime?

Eu acho que esse cara já é um bandido e não tem nada a perder. Acho que só a ganhar, né? Sei lá...

Na sua visão seria mais fácil colocar a culpa nas costas de quem já cometeu outros crimes, é isso?

Não sei o que aconteceu, mas deve ser isso. Não foi ele quem cometeu o crime. Não foi ele quem atirou em mim e no meu namorado. Foi o Juarez. Eu vi o Juarez várias vezes e o reconheci em todas elas. Antes de eu ver a foto do Juarez eu já tinha feito o retrato falado. Se vocês forem compará-lo com o retrato falado, não sobra dúvida.

Você chegou a ver uma foto do Paulo. Tem certeza de que não existe possibilidade de ter se equivocado?

Eu olhei de bom grado, a polícia foi na minha casa me mostrar. Não existe a menor possibilidade de ser esse cara. Ele nem se parece com quem fez isso comigo.

Como você se sente com essa reviravolta?

Eu estou assustada. Tenho medo de que soltem esse Juarez e ele venha terminar o serviço. Estou bem aflita mesmo.

Parece que tem chance de ele ser solto nos próximos dias.

Isso é um absurdo. O cara fez tudo isso comigo, com o meu namorado... Dificilmente eu sobreviveria. Graças a Deus eu estou aqui. A polícia encontra o bandido, eu reconheço o bandido e agora ele vai ser solto? Só porque um outro sujeito falou que foi ele e assumiu a culpa sem mais nem menos? Como vão acreditar em um cara que já é um bandido?

Qual avaliação você faz do trabalho da polícia e da promotoria nesse caso?

A polícia agiu bem porque prendeu mais um bandido (Paulo). A promotoria tem que atuar para não deixar o Juarez ser solto. Por enquanto eu acho que está tudo correndo bem, não tenho do que me queixar.

Como tem sido sua vida após o crime?

Desde que eu saí do hospital tem sido complicado. Ainda urino involuntariamente, é constrangedor, não consigo me mexer. Do peito para baixo não tenho movimento. Falta equilíbrio para comer, escovar os dentes. Preciso da ajuda contínua da minha mãe, do meu pai e da minha irmã. A coisa está devagar, mas eu tenho certeza de que vou melhorar.

Como está o seu tratamento?

Eu ainda não comecei. Vim só fazer uma consulta aqui em Brasília. Cada dia eu estou melhor, mas por enquanto eu continuo em uma cadeira de rodas sem conseguir fazer nada. O negócio está ruim para o meu lado. Eu quero me reabilitar. Nem que seja só andar, para mim já está bom.

Já está certo que você vai fazer o tratamento em Brasília? Você pretende morar aqui?

Ainda não sei, depende do resultado dos exames. Mas eu vou me dedicar aos tratamentos. Eu não admito ficar assim, sou uma pessoa muito ativa. Para mim, ficar numa cadeira de rodas não serve.

Fonte: Gazeta do Povo

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