Não por causa do câncer.
Mas em virtude de preocupações naturais para uma mulher de 63 anos. Dilma convive com vários problemas que consomem energia. Ela sofre de diabetes tipo 2 e, há vários anos, toma o remédio Glifage para mantê-la sob controle. O tratamento tem funcionado. Com o remédio, os níveis de glicemia ficam um pouco acima do normal. Além do diabetes, Dilma também tem gordura acumulada na região abdominal.
Em conjunto, são dois sinais característicos de uma condição conhecida como síndrome metabólica, extremamente comum no Brasil e no mundo, considerada um fator de risco para doenças cardiovasculares, como infarto e derrame.
Cerca de 80% das pessoas que têm diabetes tipo 2 estão acima do peso. Quando o diabético engorda, fica mais difícil manter os níveis ideais de açúcar no sangue, e o remédio torna-se imprescindível.
Dilma sofre também de problemas hormonais. As células de defesa de seu organismo reconhecem a glândula tireóide como um corpo estranho e passam a atacá-la. Ela sofre de uma doença autoimune conhecida como tireoidite de Hashimoto, a causa mais comum de hipotireoidismo. “Sem tratamento, a pessoa sente desânimo, percebe que suas funções orgânicas e cognitivas ficam mais lentas, o cabelo cai com facilidade e as unhas ficam fracas”, diz Laura Sterian Ward, presidente do departamento de tireóide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “O tratamento é para a vida inteira. É como usar óculos. A dose do hormônio tem de ser ajustada corretamente, e o remédio precisa ser tomado todos os dias em jejum.” Quando a dose do hormônio é inadequada, o paciente sente alterações da frequência cardíaca.
Depois de décadas de doença, a tireóide de Dilma praticamente não produz mais hormônio. É por isso que ela precisa tomar disciplinadamente o remédio Synthroid. Durante o tratamento da pneumonia, nem sempre ele pôde ser tomado em jejum, e a absorção do hormônio tireoidiano ficou prejudicada. Quando sente taquicardia, a presidente percebe que a dose do hormônio precisa ser ajustada.
A presidente tem colesterol normal, mas às vezes sofre de pressão alta. Para manter a pressão arterial na faixa dos 13 por 8, precisa tomar o anti-hipertensivo Cozaar. Os médicos dizem que o coração da presidente vai bem. Ela já passou, no entanto, por um episódio vascular complicado. Para receber a quimioterapia e fazer exames sem precisar puncionar veias com frequência, ela recebera um cateter implantável, chamado port-a-cath, que permite o fácil acesso às veias. Em 20 de março de 2010, ela apresentou um inchaço na região do pescoço (um edema), como resultado da formação de um coágulo.
Poderia ser o início de uma leve trombose na veia cava, a principal veia que transporta o sangue venoso para o coração. Em alguns casos, uma trombose desse tipo pode ser fatal se provocar embolia pulmonar ou uma grave obstrução na própria veia. Não foi o caso de Dilma. “Nesta mesma data, optou-se pela retirada do cateter venoso central (port-a-cath) com resolução do quadro clínico”, diz o boletim emitido pelo Sírio-Libanês.
Outro motivo de preocupação é a variação de seus níveis de potássio. Às vezes, eles caem rapidamente. Ela percebe quando falta potássio no organismo porque sente cãibras. Os médicos revertem o problema com a prescrição de doses elevadas do composto. Para controlar esse problema, ela toma o medicamento Slow-K.
Além da última pneumonia, Dilma contraiu gripe suína na Europa no final de 2009, quando era ministra da Casa Civil. Foi tratada com Tamiflu e Levaquin. Os dois episódios levantaram especulações sobre a condição imunológica da presidente. Para alguns especialistas envolvidos no tratamento, sua imunidade nunca mais foi a mesma desde a quimioterapia adotada para combater o linfoma, embora os médicos oficiais digam o contrário.
Oncologistas especializados no tratamento de linfoma dizem que a imunidade do paciente costuma ficar comprometida nos meses que se seguem à quimioterapia. Em geral, porém, o sistema imune volta a funcionar bem seis meses depois do final do tratamento. “É incomum que a imunidade do paciente fique baixa depois desse tempo”, diz o hematologista Garles Miller Matias Vieira, do Hospital AC Camargo, em São Paulo.
A saúde de um presidente é um tema tão relevante
para o jogo político quanto a ética das autoridades
O principal parâmetro para avaliar se o organismo é capaz de reagir a infecções é a contagem de glóbulos brancos do sangue, os leucócitos. No exame realizado por Dilma no dia 30 de abril no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, esse índice estava dentro dos parâmetros normais. Segundo Kalil, a presidente não tem apresentado infecções urinárias ou gástricas repetidas vezes, eventos que poderiam caracterizar um quadro de baixa imunidade.
Além dos remédios convencionais, Dilma consome também cápsulas de curcumina e óleo de linhaça, produtos vendidos com a promessa de perda de peso. Também usa um suplemento de fibras, um polivitamínico e o Q-10, um produto antioxidante que supostamente protege o coração. O item mais curioso da lista são as cápsulas de cartilagem de tubarão. Apesar da crendice popular, não há nenhuma comprovação científica de que elas ajudem a prevenir o câncer. A presidente toma as cápsulas por conta própria. A pedido de ÉPOCA, ela confirmou a Kalil que usa o produto e ele se disse surpreso. O histórico de saúde da presidente inspira cuidados. Uma mulher de 63 anos, com sobrepeso, intolerância à glicose, pressão arterial controlada com medicamentos e uma vida extremamente estressante precisa passar por rigoroso acompanhamento médico como vem fazendo.
Até agora, Dilma tem demonstrado mais disposição para o trabalho que muitos jovens. ÉPOCA apurou que um dos ministros desistiu de acompanhá-la à China quando viu que a agenda seria muito mais extensa do que ele imaginava.
Mais preocupante que a saúde de Dilma é o silêncio sobre ela. Quando era ministra, ela só convocou uma entrevista coletiva para contar que tinha câncer depois que a notícia já estava publicada no jornal Folha de S.Paulo. E tentou manter em sigilo que já começara a fazer quimioterapia.
A falta de transparência sobre a saúde da presidente alimenta boatos num setor em que o Brasil coleciona traumas. Em 1909, último ano de seu mandato, Afonso Penna morreu de pneumonia no exercício do cargo. Em 1967, o marechal Arthur da Costa e Silva, segundo presidente da ditadura militar (1964-1985), sofreu um derrame. Costa e Silva ficou preso a uma cama, sem conseguir falar e com um dos lados do corpo paralisado.
Paranóicos, os militares esconderam a doença e impediram a posse do vice, Pedro Aleixo, um civil. O mistério alimentou boatos. Um dizia que Costa e Silva já estava morto. Outro dizia que a causa do afastamento não era doença, mas um tiro. Em 1981, dois anos depois de tomar posse, o último presidente militar, general João Figueiredo, sofreu um infarto. Figueiredo foi operado nos Estados Unidos. Mesmo num regime ditatorial, a doença de Figueiredo foi divulgada e o vice, Aureliano Chaves, assumiu.
O maior marco da falta de transparência foi a doença de Tancredo Neves. Eleito primeiro presidente civil após 21 anos de regime militar, Tancredo sabia que estava doente meses antes. Escondeu seu estado clínico. Tancredo foi internado às pressas no hospital de Base de Brasília na noite anterior à posse, marcada para 15 de março de 1985, com uma diverticulite. Sua longa agonia de 39 dias no hospital foi um show de desinformação. Para tentar passar a falsa impressão que estava tudo bem, seus aliados montaram uma farsa.
Tancredo foi retirado da cama, vestido num robe de chambre, e posou para uma foto ao lado da mulher, Risoleta, e da equipe médica, todos sorridentes. Divulgada para toda a imprensa, a foto era uma farsa: Tancredo tinha sondas injetadas no corpo que ficavam escondidas atrás do sofá. Morreu quase um mês depois. Como no caso de Costa e Silva, a contradição entre o divulgado e a realidade sobre o estado de saúde de Tancredo criou um terreno fértil para lendas urbanas sobre a causa da morte.
A saúde de um presidente é um tema tão relevante para o jogo político quanto a ética das autoridades. É um bem de interesse público que extrapola as fronteiras do direito ao sigilo médico. A situação seria diferente se os candidatos à Presidência fossem obrigados a prestar uma declaração sobre sua condição de saúde da mesma forma como são obrigados a abrir o sigilo do Imposto de Renda? Alguns países valorizam mais a transparência que outros. Mesmo sem regras escritas, os americanos tendem a adotar a transparência total quando está em jogo a saúde de presidentes da República.
Boa parte da história médica de 41 presidentes americanos está compilada num livro, The health of the presidents, escrito por um médico. Um exemplo: ainda em campanha, o então candidato democrata, senador John Kerry, na disputa com George W. Bush nas eleições de 2003, revelou seu tratamento de um câncer de próstata. “Eles se adiantam nas informações porque transparência, nesses casos, é essencial. Sem isso, começam boatos e fica tudo pior”, diz Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
Por ocupar o mais alto cargo majoritário de um país, a saúde do presidente precisa ser um livro aberto? A sociedade tem direito a saber todos os detalhes de tratamentos, de males, quaisquer que eles sejam? “Eu me inclino a considerar que somente venham a ser expostos ao público dados sobre a saúde do governante que ameacem a continuidade de seu governo e possam ter graves efeitos sobre o país”, diz o cientista político Leôncio Martins Rodrigues.
Moléstias prolongadas teriam, para ele, um potencial muito maior de gerar instabilidades econômicas e políticas no país do que a morte em si, um fato consumado. Foi com certo constrangimento que o ex-presidente americano James Carter (1977-1981) falou publicamente sobre suas hemorróidas. Era preciso acalmar o mercado financeiro, inflamado com boatos muito piores sobre sua saúde.
Na França, em 1981, o presidente François Mitterrand determinou a divulgação de boletins médicos semestrais sobre sua saúde. A iniciativa pretendia afastar o fantasma da morte de Georges Pompidou, em 1974, atingido por um raro tipo de câncer, quando ainda estava na Presidência. Soube-se, depois, que os boletins sobre Mitterrand teriam sido falsificados por seu médico particular, autor de um livro em que revelava como Mitterrand escondera, por mais de uma década, a doença que lhe consumia.
O câncer que matou Mitterrand se tornou público apenas em 1992, mais de dez anos depois de sua descoberta, de acordo com o relato feito por um médico particular. Se Dilma quiser se inspirar nos exemplos que a história tem a lhe oferecer, a estratégia mais recomendada é a transparência. Na falta dela, as especulações podem fazer ainda mais mal para sua saúde.


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