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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Suécia constrói o depósito de lixo atomico mais seguro do mundo

Opção Sueca

Suécia constrói depósitos de lixo atômico debaixo do oceano

O depósito de Foshmark é considerado um dos mais seguros do planeta.
Ele fica em um túnel, 50 metros abaixo do fundo do mar, no coração de uma rocha de 1,9 milhão de anos.


Toda usina nuclear produz um lixo radiativo. Essa é um das maiores preocupações dos ambientalistas e das autoridades de países que usam energia atômica para produzir eletricidade. Os enviados especiais do Jornal Nacional à Suécia, Marcos Loseka
nn e Sérgio Gilz, conheceram uma solução de engenharia para esse problema.

Clique aqui e veja o vídeo do depósito

Um depósito de lixo, muito além do fundo do mar. Se uma lâmina de apenas 50 centímetros de água já é considerada segura para evitar a propagação de radioatividade, imagine então com mais de 300 metros de água em cima.

O depósito de lixo atômico de Foshmark é considerado um dos mais seguros do planeta. Fica em um túnel, 50 metros abaixo do fundo do mar, no coração de uma rocha de 1,9 milhão de anos de existência. É um material tão duro quanto o aço e tão isolante quanto o chumbo. Nele, todo o lixo atômico produzido na Suécia está sendo sepultado para sempre.

Dentro da rocha e, ainda por cima, coberto por uma camada de um metro de concreto. São 100 toneladas de lixo atômico por ano. O material é levado em contêineres por caminhões especiais. Tudo automatizado para evitar contaminação.

Comboio levando material nuclear para o depósito sueco em Foshmark .

O depósito definitivo deu tão certo que os suecos decidiram ir ainda mais fundo: um túnel 10 vezes maior já está sendo escavado. Serão 500 metros abaixo do fundo do mar. O objetivo será vender espaço para que outros países também possam se livrar de seu lixo atômico.

Segundo a responsável pelo projeto, além de ter o solo livre do risco de terremotos, Foshmark fica bem atrás de uma ilha, em uma baía considerada à prova de tsunamis. Mas o melhor de tudo, diz ela, é que o projeto foi aprovado por 80% da população local, de olho nos investimentos que serão atraídos para lá: o equivalente a R$ 500 milhões, ‘energia econômica mais que bem-vinda em um município de apenas 6 mil habitantes

Opções brasileiras

Dentro de uma piscina cheia de água, numa instalação anexa à usina nuclear Angra I, no litoral sul do Estado do Rio de Janeiro, 15 toneladas de resíduos radioativos—o lixo venenoso que resulta da própria operação do reator—repousam em tambores blindados. Parece muito, mas é uma insignificância perto das 20 000 toneladas produzidas pelos reatores nucleares em funcionamento nos Estados Unidos, armazenados em tanques semelhantes. Essa, porém, é a única diferença.

Porque, no mundo inteiro, os cientistas nucleares enfrentam há muito tempo o mesmo desafio: encontrar quanto antes uma maneira definitiva de dispor do lixo atômico, principalmente do chamado material de alta atividade, proveniente do reprocessamento de elementos combustíveis, capaz de emitir radiações letais para os seres vivos durante milhares ou até milhões de anos—uma eternidade, para todos os efeitos práticos. O fato de não se ter encontrado ainda a solução dessa charada, 36 anos depois da entrada em funcionamento da primeira usina nuclear destinada à produção de eletricidade, na União Soviética, é um dos dois principais motivos pelos quais muita gente gostaria de banir tais reatores da face da Terra; o outro é o eterno risco de tragédias, como a da usina de Chernobyl, também na URSS, em 1986.

Nos reatores movidos a urânio, um átomo desse elemento é bombardeado por nêutrons. Seu núcleo então se divide, liberando enorme quantidade de energia, raios gama e mais dois ou três nêutrons que irão bombardear outro átomo e assim por diante. Dessa reação em cadeia brotam novas substâncias radioativas, como o plutônio, que serve para fazer bombas ou para alimentar outros tipos de reatores, e não existe na natureza. O processo gera ao todo mais de 1 000 substâncias altamente radioativas. O que não é reaproveitado no próprio reator ou para outras finalidades é o lixo atômico.

A piscina em Angra I foi projetada para acolher resíduos formados em oito anos de operação. Mas, na realidade, as 15 toneladas ali depositadas equivalem a um ano de funcionamento da usina brasileira, inaugurada em 1982. Mais lixo não se formou pela simples razão de que a usina ficou fora do ar a maior parte do tempo por causa dos intermitentes defeitos que acabaram lhe valendo o apelido vagalume, que acende e apaga, acende e apaga. "Sobra espaço na piscina, mas não devemos esperar sua capacidade se esgotar para então agir", recomenda o físico carioca Luís Pinguelli Rosa, que integra a comissão organizada na Sociedade Brasileira de Física para estudar o assunto. Pinguelli é um dos maiores incentivadores da idéia de que o governo junte em volta de uma mesa os melhores nomes do ramo para que digam o que se pode fazer a respeito—e logo.

Os cientistas têm recomendado uma variedade de alternativas. Na França, por exemplo, 20 mil metros cúbicos dee lixo radioativo estão aprisionados nos armazéns de concreto da instalação nuclear de La Hague, no noroeste do país, aguardando destino definitivo. Com planos de enterrar o material de grande radioatividade, os pesquisadores franceses investigam quatro tipos de sepulturas: solos de xisto, de sal, de granito e de argila. Mesmo que uma dessas formações rochosas tenha as características ideais—algo que será confirmado apenas em 1997—, o túmulo adequado só ficaria pronto dez anos depois. Enquanto isso, as centrais nucleares francesas, responsáveis por 70% da eletricidade gerada no país, lançam cerca de 40 metros cúbicos por ano de material radioativo ou de radiação ionizante ionizante, como dizem os cientistas. "O Brasil não está numa situação melhor, porque aqui nem se decidiu onde depositar os rejeitos de baixa atividade", critica Pinguelli.

De fato, 98% do lixo radioativo brasileiro compõe-se de rejeitos que precisam ficar isolados do contato humano durante dois ou três séculos apenas. Isso por causa do fenômeno que os físicos chamam meia-vida: o tempo necessário para que a radioatividade de uma substância caia pela metade. O césio - 137, por exemplo, material usado em equipamentos de radioterapia e que contaminou uma série de pessoas em Goiânia, em 1987, tem uma meia vida de trinta anos. Ou seja, passado esse período, restará metade da radiação inicial: depois de mais trinta anos, um quarto; após outros trinta, um oitavo; e assim por diante. Além de provir de aparelhos desativados, que mexeram com material nuclear, e da água usada para controlar a temperatura nos reatores—que tende a ficar contaminada por partículas radioativas—, o lixo de baixa e média atividade é também engordado por materiais comuns, como luvas e aventais, usados na manipulação de substâncias radioativas.

Segundo o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), do governo federal, cerca de 10 000 brasileiros lidam diariamente com elementos radioativos. "Basta que uma gota dessas substâncias respingue na roupa e o tecido passa a ser pequena fonte de radiação", informa a física chinesa, naturalizada brasileira, Cecil Chow Robilotta, da USP. Ali, cestos de lixo revestidos de chumbo e tambores de resfriamento guardam material contaminado—aventais, seringas, pinças, chumaços de algodão—em processo natural de decaimento, a diminuição gradativa da radioatividade.

Quando a meia-vida é maior, porém, os rejeitos tanto de hospitais como de indústrias seguem para armazéns especiais. No Estado de São Paulo, o depósito fica na Cidade Universitária, na zona oeste da capital, no lugar onde funciona o IPEN. Ali se acumulavam, até o último mês de julho, 104,9 toneladas de lixo, distribuído em 615 tambores. Antes de ser armazenado, esse volume passou por um ritual, praticamente idêntico nos centros de tratamento de rejeitos radioativos do mundo inteiro. "O primeiro passo se assemelha a uma triagem, para extrair os resíduos, ou seja, a parte do lixo que ainda pode ser aproveitada", descreve o físico nuclear Achilles Suarez, responsável pela equipe que pesquisa rejeitos radioativos no IPEN. "As bombas de césio-137, quando não se prestam mais para tratar tumores, ainda podem ser aproveitadas em aparelhos de gamagrafia, que servem para fazer diagnósticos", exemplifica.

A conseqüência mais óbvia dessa, reciclagem é que o volume do lixo diminui. Também para reduzir o volume, aquilo que de fato é rejeito deve ser ainda compactado, sempre que possível. "Não faz sentido guardar 1 litro inteiro de água, se apenas poucos mililitros estão contaminados", argumenta ele. "Por isso, criamos uma espécie de concentrado radioativo." O fluído em seguida é misturado a algum tipo de sólido, como cimento ou betume, para evitar toda e qualquer dispersão durante a manipulação do material. Em outros locais, os rejeitos líquidos de alta atividade são transformados em vidro, também para impedir derramamentos. Quando o rejeito é sólido, muitas vezes é possível prensá-lo. Assim. um tambor com 0,5 metro de altura, recheado de lixo atômico, termina compactado numa pastilha de cerca de 10 centímetros de altura.

Quando Achilles Suarez entrou na faculdade, em 1957, um veterano pendurou-lhe no pescoço um cartaz: "Hoje, estudante de Física, amanhã lixo atômico". O trote foi profético: depois de ter trabalhado mais de dezesseis anos na área de proteção radiológica do próprio IPEN, o físico acabou assumindo o setor de rejeitos em 1983. No fundo, as duas áreas têm a mesma finalidade: interpor o maior número possível de barreiras entre a fonte de radiação e o homem; A rigor, qualquer corpo serve de obstáculo para a radiação —o problema é que, conforme a fonte radioativa, o obstáculo pode se tornar menos ou mais eficiente. Quando, na reação de fissão, um átomo é bombardeado até romper o núcleo, a energia pode ser liberada por quatro tipos de radiação: alfa, beta, gama e ainda de nêutrons —que devem ser bloqueados por materiais com características diferentes.

Os cientistas do setor se preocupam não só com qual seria o melhor cemitério para o lixo atômico, mas também com a necessidade de ser ele mantido sob controle constante. Por isso, não apreciam particularmente a alternativa clássica de jogar os rejeitos no mar. "Nunca se saberá direito como a embalagem estará resistindo debaixo da água, nem se poderá ter certeza de que os tambores não acabarão flutuando até alcançar uma praia", adverte o físico Vito Vanin, da USP.

O mar, na verdade, foi o primeiro lixão radioativo: o Mediterrâneo recebeu 50 toneladas de rejeitos produzidos na Itália; as águas do Atlântico engoliram nada menos de 126 000 toneladas de tambores repletos de lixo dos reatores de seis outros países europeus. Os Estados Unidos despejaram no Oceano Pacífico 370 metros cúbicos (os países nem sempre adotam as mesmas unidades de medida) de material radioativo. A título de comparação, uma piscina olímpica tem 1890 metros cúbicos.

O empesteamento só cessou em 1986, quando um acordo internacional determinou que o mar só poderia ser usado quando ficasse provado que a água é capaz de diluir os elementos radioativos, sem prejuízo para a fauna e a flora marítimas. O estudo a respeito, a cargo de pesquisadores americanos, ingleses e japoneses, deverá estar pronto no início do próximo ano. É claro que o terreno ideal para a construção de um depósito subterrâneo de lixo atômico precisa ser estável—um terremoto seria capaz de rasgar os tambores recheados de matéria radioativa. Mas a impermeabilidade da rocha é ainda mais importante. Caso partículas ionizantes escapem pela embalagem do lixo, elas podem levar até 1 milhão de anos para alcançar a superfície. Já um lençol de água poderia trazer o mal à tona em alguns meses, abrindo-lhe as portas para a cadeia alimentar dos seres vivos.

"O sal é extremamente impermeável, por isso os alemães fazem bem ao depositar o lixo em minas de sal desativadas. Só que a rocha é muito plástica e talvez não suporte pesos grandes", pondera o geólogo gaúcho Gérson Dornelles, que organiza na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) a busca de um solo adequado para enterrar o lixo nuclear brasileiro."O granito, muito mais resistente, tem a desvantagem de possuir fissuras que facilitam o escoamento de água."

A CNEN já apontou duzentas áreas de interesse para depósitos de lixo de baixa e média atividade no país. A maioria se localiza em solos argilosos, com camadas horizontais que dificultam a migração de partículas radioativas rumo à superfície, como em São Fidélis, no Rio de Janeiro, e Trindade, em Goiás. A decisão, quando vier, terá provavelmente a forma de uma lei votada pelo Congresso a partir de um projeto encaminhado pelo Executivo. Está prevista para este mês a entrega à Presidência da República de uma avaliação, elaborada por uma equipe da Secretaria Especial do Meio Ambiente, de projetos já existentes sobre rejeitos radioativos, como o de autoria do governo anterior, de junho de 1989, que já recebeu dois pareceres negativos de comissões da Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, em tambores deixados a céu aberto, cobertos precariamente e que já começam a se estragar pela corrosão, 3 460 metros cúbicos de lixo atômico aguardavam há três anos em Abadia, a 20 quilômetros de Goiânia, a decisão de Brasília sobre o seu destino.

Esse lixo se originou em um ferrovelho, quando foi violada uma cápsula de césio-137 de não mais de 3 centímetros cúbicos—o tamanho de uma borracha de lápis—, matando quatro pessoas e contaminando mais de duzentas outras. "É preciso criar um depósito, que eu chamaria de intermediário, para abrigar os rejeitos gerados em acidentes como o de Goiânia", alerta o físico José Goldemberg, secretário de Ciência e Tecnologia do governo federal. "Na época do acidente, cientistas sugeriram levar os rejeitos para a Serra do Cachimbo, no Pará, onde já existem buracos de 300 metros de profundidade, recobertos de concreto. Seria a solução perfeita", lembra ele. "Mas um grupo de índios fez uma manifestação diante do Palácio do Planalto e o governo resolveu voltar atrás. Um absurdo. Enterrado ali, o lixo não ofereceria nenhum risco." [enquanto as autoridades do Brasil dedicarem atenção a qualquer manifestação idiota que for realizada, seremos um país medíocre e capaz de eleger e reeleger, presidente da República, algo com o Lula.

Se o Brasil resolvesse seguir a opção sueca - com condições inclusive de alugar espaço para outros países, com certeza alguma ONG iria recorrer ao STF e conseguir permissão para realizar marchas de protesto.

É preciso que o governo, agindo com seriedade e embasamento cientifico, cumpra seu dever e se tiver de ser feito, faça.

Não pode ser esquecido que quando os indios impediram a destinação dos rejeitos do aciente com o CÉSIO 137 de Goiânia na Serra do Cachimbo, o presidente do Brasil era o 'incomum' Sarney - o que não é lá grande coisa quando comparado com o Lula e a atual.]

Fonte: Super Interessante e Jornal Nacional

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