Facções extremistas pregam ideias iguais às do autor de atentado na Noruega
Embora os partidos extremistas de direita europeus tenham condenado o atentado da Noruega, eles seriam de certa forma, autores intelectuais do crime, segundo Stefan Schölermann, especialista em extrema-direita de Hamburgo e autor de vários livros sobre o assunto. Para Schölermann, esses partidos pregam ideias idênticas às do assassino de Oslo: um medo difuso dos imigrantes muçulmanos. Teses como as do holandês Geert Wilders são muito perigosas porque espalham um clima que "vai contra a sociedade aberta e tolerante", diz.
O GLOBO: O senhor vê os partidos extremistas europeus como autores intelectuais do atentado de Oslo?
STEFAN SCHÖLERMANN: Há muitos elementos em comum entre o homem de Oslo e os partidos populistas de direita na Europa, como por exemplo, o medo dos imigrantes, o medo do Islã, o medo do casamento homossexual. As suas ideias são com certeza influenciadas pelo populismo de direita. Os partidos não são responsáveis pelo ato fanático de Anders, mas eles pregaram essas ideias e, de certa forma, influenciaram o norueguês.
O GLOBO: No seu manifesto de mais de mil páginas, Anders cita partidos extremistas e jornalistas europeus que se falam do chamado "perigo do Islã"...
SCHÖLERMANN: É difícil dizer como ele chegou às suas ideias loucas. Ele mesmo diz que foi influenciado pela Guerra do Golfo e conflitos da antiga Iugoslávia. Eu acho que quem pratica uma ação criminosa tão monstruosa deve ter tido uma experiência pessoal que o marcou. Mas teses como as de Geert Wilders, da Holanda, são altamente perigosas porque espalham um clima que vai contra as ideias de uma sociedade aberta e tolerante. Aqui na Alemanha tivemos no passado uma discussão parecida, de que as ideias de 1968 e da esquerda seriam corresponsáveis pelos crimes do grupo terrorista Baader-Meinhof, que surgiu nos anos 70.
O GLOBO: Em sua opinião, ações tão violentas quanto as da última sexta na Noruega podem influenciar populistas de direita para que passem a ter mais cautela com as suas ideias extremistas?
SCHÖLERMANN: É difícil dizer. Eu sei, porém que fóruns direitistas na internet têm classificado o atentado de Oslo como uma catástrofe para a direita. Nenhum extremista quer se ver associado a uma ação que parece mais a de um serial killer.
O GLOBO: Alguns analistas advertem para o perigo dos fundamentalistas cristãos, que seriam uma resposta aos fundamentalistas islâmicos. O que há de concreto nisso?
SCHÖLERMANN: Há círculos altamente conservadores que cultivam o medo do Islã. Mas Anders usou o conceito apenas, pois não fazia parte de nenhuma organização. Há na internet blogs que se definem como fundamentalistas cristãos. Anders cita o blogueiro Fjordman, da Suécia, um fundamentalista cristão cuja identidade não é conhecida.
O GLOBO: Como o senhor descreveria os atentados da Noruega? Há o perigo de ações semelhantes na Europa?
SCHÖLERMANN: Foi uma ação planejada em detalhes. O homem sabia o que estava fazendo e agiu de forma racional. Acho que há o perigo de imitação. Sempre que é divulgado o caso de um atirador que pratica um massacre em uma escola, o caso influencia outras pessoas a ações semelhantes. É possível que pessoas isoladas tenham ideias semelhantes e sejam influenciadas para fazer algo igualmente bombástico. É um perigo contra o qual não há proteção. Quem pode ver o que é arquitetado na cabeça doentia dessas pessoas?
O GLOBO: É possível que Anders seja visto por essas pessoas como um herói e torne-se assim, indiretamente, o fundador de um movimento contra o multiculturalismo?
SCHÖLERMANN: É difícil fazer uma previsão. Eu, pessoalmente, não acho muito provável. Houve nos Estados Unidos um atentado semelhante, e o criminoso também deixou um manifesto, uma mistura de textos próprios e copiados, que de forma alguma serviu de base para uma nova organização.
Fonte: Reuters

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