A deportação de Lai Changxing representa uma grande vitória para os burocratas chineses, que há décadas tentam trazê-lo de volta ao país. É provável que Changxing tenha recorrido ao pagamento de propinas para autoridades que ainda ocupam altos cargos na estrutura estatal chinesa; interessa-lhes que Changxing esteja em algum lugar onde não possa revelar o que sabe.
Essa é também uma grande vitória para o governo chinês na medida em que valida o seu próprio sistema jurídico. O Canadá e seu sistema judiciário independente estão, com efeito, dizendo que o sistema legal chinês pode ser levado a sério. Quando a China diz “não torturaremos ou executaremos Lai”, tudo indica que até pessoas inteligentes como os juízes canadenses estão dispostos a acreditar nisso. Isso é extraordinário por si só. Uma dúzia dos confidentes mais próximos de Changxing foi executada ao longo dos anos desde que seu caso veio à tona, e tanto seu irmão quanto seu contador morreram na prisão em circunstâncias não explicadas. É difícil entender como os advogados chineses convenceram os canadenses que o malquisto Changxing pode estar em segurança na China.
Beijing pressionou incansavelmente o Canadá pela deportação de Changxing durante dez anos: negando privilégios de vistos, erodindo tratados comerciais, ignorando autoridades graduadas. Os legisladores canadenses decidiram anos atrás que a vida seria muito mais fácil se pudessem apenas conceder à China o que ela queria.
Nenhuma garantia dada por Beijing pode ser confiável. A China provavelmente não executará Changxing ou pelo menos não tão cedo (notoriedade demais). Entretanto qualquer um preocupado com reformas na China – e o judiciário é terreno mais propício para mudanças do que o governo propriamente dito – ficará desapontado. O sistema legal canadense, um dos mais progressivos e respeitados do Ocidente, acaba de dar um selo de aprovação a seu politizado e abusivo semelhante chinês. Isso reforçará o pior tipo de complacência em Beijing.

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