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domingo, 10 de julho de 2011

Jornalista fica nu em aeroporto da Suécia

A abordagem foi seca, interrompendo meu caminho para o corredor de saída:
— ??????????? — foi o que entendi do que disse, em sueco, o homem uniformizado.

Estava no Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, chegando de uma longa viagem que vinha do Rio, com escala em Paris. Cansado e surpreso, não tive presença de espírito para soltar um sorry?. Em vez disso, expressei minha incompreensão.
— Ãhn?!?
— English? — perguntou.

Confirmei que podíamos nos entender em inglês. Costumo dizer, brincando, que tenho um tipo físico (pele morena, olheiras marcadas, lábios grossos, cabelo ondulado, nariz largo) que me torna um visitante suspeito em qualquer país desenvolvido do mundo — apesar de ter um bisavô italiano (Lichote vem de Lichotti) e um avô louro de olhos azuis, descendente de austríacos. Dependendo do destino, posso ser visto como árabe, mexicano, turco, paquistanês, indiano e mesmo brasileiro. Afinal, em números absolutos, nossos turistas são os mais barrados nos aeroportos da Europa.

O agente perguntou de onde eu vinha. Já me sentia pouco à vontade — a brincadeira sobre meu tipo físico não me parecia mais tão engraçada.
— Rio, Brazil — disse com uma simpatia patética, temendo ser convidado a embarcar num avião de volta para casa depois de ter sido convidado pelo governo sueco a visitar seu país.
Ele quis saber o que eu iria fazer lá. O tom era intimidadoramente amistoso. Informei — já denunciando certo nervosismo na voz — que ia, a convite da Embaixada da Suécia, para a ilha de Faro, onde estava sendo realizada a Bergman Week (série de eventos anual que ilumina a vida e a obra do cineasta Ingmar Bergman).

Se dissesse, numa postura neo-hippie, que era um compositor que gastaria alguns dias buscando inspiração pelas praças da cidade, deixando o ar nórdico invadir minhas canções, ou algo assim, talvez fosse liberado por cumprir as expectativas que o agente tinha sobre mim.

Mas aquele sujeito de olhos vermelhos (da noite passada com lentes de contato e cabelos mais desgrenhados do que o normal depois dos péssimos cochilos na poltrona central do avião da Air France) não podia estar indo a um evento bergmaniano. Não encaixava.

— Hmm, Bergman Week — comentou. — O senhor pode me acompanhar, por favor?

No hall ao lado do corredor, ele pediu para pôr a mala e a mochila sobre o balcão. Enquanto as esvaziava, fazia perguntas, sempre naquele tom entre o gentil e o inquisitório. O conteúdo de minha bagagem parecia entediante a ele — o que havia de mais próximo a ilegalidade era um exemplar de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, que mereceu uma olhada mais atenta. Girei a cabeça para saber quem eram meus colegas de pente fino. Havia uma senhora com aparência e roupas que me faziam pensar que era indiana. A outra, uma jovem, de
tipo inegavelmente nórdico. Mas obesa.

Respondi quais eram meus filmes favoritos de Bergman (uma pegadinha?) e ouvi comentários do agente sobre “Fanny e Alexander”. A cada três perguntas, uma já feita era repetida, no estilo “É a sua primeira vez na Suécia?” ou “Você conhece alguém aqui?”.“Sim, não”. Ou melhor: “Sim, sim”, lembrei-me dos contatos que tinha, as pessoas que haviam me convidado. Havia caído em contradição?

Não sei. Mas depois de ver passagens, documentos, confirmação de hotel e passar as malas vazias pelo raio-X, para verificar se havia algo escondido no forro, ele me informou que eu podia guardar minhas coisas. Agora seria liberado e poderia seguir viagem. Não.

— Deixe as malas aí, por favor, e vamos à sala onde iremos revistá-lo.
Lá dentro, ao agente louro juntou-se um moreno.
— Não encostaremos no senhor, mas pediremos que tire
suas roupas.

Na mesma hora, lembrei-me dos estereótipos que remontam aos tempos da escola e cogitei que não é exatamente essa a cena que a expressão “ficar nu na Suécia” evoca.
A falta de reação ao pedido — que obedeci novamente parecendo casual — tem a ver com a exaustão e com a impressão de legalidade que to do o processo transmite. Não é como ser parado numa blitz de madrugada no Rio, onde sabemos exatamente quando a linha da legalidade é ultrapassada — um amigo teve que ficar nu numa rua carioca, abordado por policiais a um quarteirão de sua casa, região
próxima a uma favela.

Após pedirem para ver a sola dos meus pés e que levantasse o braço para confirmar que não havia nada nas minhas axilas, eles me intimaram a baixar a cueca até o joelho.

Frente. Costas. E pronto. Saíram da sala e pude me vestir novamente. Depois, fui até minhas malas e ouvi:
— O senhor pode ir, aproveite sua estada na Suécia.
Sem responder, peguei a bagagem e saí.

Nos dias seguintes, pude comprovar o que já intuía: o
episódio nada tinha a ver com a hospitalidade sueca — que
experimentei em Faro e no centro de Estocolmo. Em Paris, onde meu passaporte foi carimbado sem nenhum problema e cruzei todas as barreiras policiais, com uma impressão de tranquilidade, militares uniformizados andando com fuzis pelo saguão criam a mesma sensação de permanente insegurança.

É o alimento para o ambiente de medo (encontrado nas ruas do Rio ou
nos aeroportos europeus), no qual a diferença sempre é lida
como um mau disfarce para o inaceitável.

Fonte: Blog do Arnaldo

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