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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Mórbida semelhança

Eu e meu marido travamos uma discussão bizarra essa semana: ele acha que os assassinatos na França têm mais requintes de crueldade que os que acontecem no Brasil.

Eu sei que isso não é lá um assunto muito agradável - e eu sei também que a missão das cartas nesse blog é a de tentar distrair vocês um pouco de todas as más notícias e absurdos políticos cotidianos - mas só para dar uns exemplos, começando pelo mais famoso. Em abril, uma família inteira - pai, mãe e quatro filhos jovens adultos - desapareceu em Nantes. A única pista eram cartas enviadas pelo pai a familiares em que dizia: não se preocupem, estamos bem, tivemos de nos mudar de última hora por motivo de trabalho.

Dias depois, a polícia encontra no quintal de casa os corpos da mulher e dos quatro filhos. O homem continua desaparecido.

Esse mês, em Pau, perto de Toulouse, um menino de quatorze anos estava desaparecido há quinze dias. A última notícia que se tinha dele era a imagem de uma câmera de segurança a duzentos metros da casa do pai, perto das onze horas da noite, quando ele voltava de bicicleta da casa de um amigo.

Semana passada, um mendigo encontrou um pedaço de perna perto de um lago - e o teste de DNA comprovou que era do garoto. Até agora o crime não foi desvendado.

Outra notícia, saída direto das páginas policiais desta semana: até amanhã o tribunal de Gard, no Sudoeste da França, tem a missão de decidir o destino de um cidadão de 50 anos acusado do assassinato da própria esposa, treze anos atrás.

Sente o drama: o casal tinha uma filha de dois anos e, de repente, a esposa some de casa. Ele conta para familiares e amigos que foi deixado por ela, se apoiando no argumento machista de que ela tinha uma animada vida amorosa pregressa.

Durante algum tempo, amigos e familiares receberam cartas assinadas pela suposta fugitiva que reiteravam a história.

Há seis anos, no entanto, quando a menininha que herdou esse drama tinha nove anos, ela passou a relatar à família adotiva sofrer um pesadelo insistente em que o pai matava a mãe com golpes de tesoura.

Depois de ouvi-la, o juiz decidiu reabrir o caso. Eis que, em um dos muitos interrogatórios, o cidadão confessou o crime - contando que se livrou do corpo cortando-o em pedacinhos.

Eu sei que isso não tem nada a ver com a imagem que fazemos deles, mas os franceses são aficcionados por esses casos escabrosos. Eu, que não assisto televisão, não consigo me livrar de ficar sabendo deles, tamanha a profusão de manchetes sanguinolentas nos jornais e sites de notícias.

Daí a nossa polêmica familiar: para o meu marido, no Brasil a violência não é assim tão mórbida - ela existe claro, mas sem os mesmos requintes de crueldade.

Eu acho que ele já anda com tanta saudade do Brasil que está romantizando uma das nossas faces mais feias, a da violência. E vocês, o que acham?

Por: Carolina Nogueira é jornalista e mora há quatro anos em Paris de onde mantém o blog Le Croissant

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