Itamar Franco assumiu a presidência da República sem qualquer condição de fazer a diferença. Tinha menos de dois anos de mandato, o país estava no meio da hiperinflação e nem ele mesmo sabia por onde começar. Nomeou quatro ministros da Fazenda nos sete primeiros meses de um meio mandato. Era tentativa e erro. E nada parecia dar certo. A escolha de Fernando Henrique abriu o caminho para o Plano Real que ontem completou 17 anos de sucesso.
Durante a preparação do Plano várias vezes Itamar deu sugestões que não se encaixavam na arquitetura do plano, mas se deixou convencer por bons argumentos a anunciar um plano consistente que manteve a moeda estável. Sempre houve muita discussão sobre quem é o pai da moeda. A história registra: foi arquitetado por Fernando Henrique mas o governo Itamar Franco é que permitiu que tudo fosse feito. Era impossível estabilizar naquele momento, mas ele quis tentar. Poderia ter empurrado o governo para o fim fazendo o mínimo, mas quis fazer o impossível naquelas circunstâncias - tentar de novo depois de cinco fracassos - e foi bem sucedido.
Os jovens não tem condição de lembrar de Itamar antes disso, mas eu me lembro bem de quando ele como senador presidiu uma CPI histórica. Em plena ditadura a CPI questionava o Acordo Nuclear com a Alemanha, o programa nuclear brasileiro. Presidiu com firmeza aquela CPI que nos mostrou os equívocos de uma política que era considerada a menina dos olhos dos militares. Foi o que implodiu um plano megalômano e arriscado.
Quando ele assumiu o governo após a queda de Fernando Collor ele tentou fazer um governo de união nacional. Isso não foi possível, mas ele conseguiu reunir as forças políticas que garantiram a governabilidade num dos momentos de maior perigo que a nossa democracia viveu. Quem o viu no começo dessa legislatura em alguns debates ficou com a sensação que ele aos 81 anos faria um grande trabalho no Senado. Por isso fica uma sensação de que ele poderia ter ficado um pouco mais por aqui, apesar da longa vida política que teve.
Fonte: Blog Miriam Leitão
A morte do ex-presidente Itamar Franco deixa o Senado mais pobre.
Eleito no ano passado para o seu terceiro mandato como senador, Itamar tomou posse em fevereiro cheio de planos.
Mesmo aos 80 anos, apresentava uma grande vitalidade, difícil de se encontrar hoje em vários jovens, e prometia dar trabalho ao governo de Dilma Rousseff no Congresso. Isso ficou claro nos poucos meses que chegou a atuar no Senado, antes de ser diagnosticado com leucemia.
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que o diga. Pois foi justamente com ele que Itamar travou seus principais combates na sua estratégia de tentar impedir que a Casa fosse atropelada pela ampla maioria governista.
Em mais de uma ocasião, Itamar obrigou Sarney a rever suas decisões na condução de votações de interesse do governo no Senado, como na do salário mínimo, exigindo o cumprimento do regimento interno da Casa.
Numa das últimas vezes que o entrevistei, Itamar revelou que aprendeu com o ex-senador e ex-governador Franco Montoro, quando assumiu seu primeiro mandato como senador ainda no período da ditadura militar, que as minorias precisam necessariamente de ser mais aplicadas e estudiosas do que a maioria, se não quiserem ser dizimadas.
Dono de uma personalidade polêmica e um gênio forte, Itamar chegou à Presidência da República após o impeachment de Fernando Collor em 1992 numa situação bastante delicada.
Conseguiu, a duras penas, construir um governo de coalizão do qual o PT se recusou a participar e enfrentou de peito aberto problemas com sua base aliada, como quando o ex-senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) tentou constrangê-lo anunciando que tinha uma série de denúncias a fazer sobre irregularidades ocorridas em sua administração.
ACM marchou rumo ao Planalto disposto a confrontar o então presidente. Ele só não esperava que Itamar fosse abrir a audiência para a imprensa, o que acabou inibindo o então senador de fazer as revelações prometidas.
Esse era o estilo de Itamar. Não abria mão de suas convicções e princípios. Foi por isso que rompeu com Fernando Henrique Cardoso, depois de ajudá-lo a se eleger presidente da República em 1994, após o lançamento bem sucedido do Plano Real.
Itamar nunca perdou o ex-presidente tucano por ele ter patrocinado a emenda da reeleição em benefício próprio. Um equívoco, na sua avaliação, que Itamar planeja mudar com a reforma política que começou a tramitar este ano no Senado.
Já no hospital, tratando da leucemia que foi diagnósticada em maio, Itamar não parou de sonhar e fazer planos. Na última visita que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez ao ex-presidente, Itamar estava animado e prometia se recuperar rapidamente para ajudá-lo na campanha presidencial de 2014.
Fonte: Blog Adriana Vasconcelos

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