Seja qual for o tamanho da tropa, os soldados americanos não vão determinar o sucesso no Afeganistão. Assim como o recém-formado Exército Nacional Afegão também não vai. Conforme as tropas americanas forem sendo gradualmente retiradas nos próximos três anos, será o Exército paquistanês, de 600 mil homens, que se tornará a força dominante na região. E esses militares estão passando por uma profunda crise de identidade, a mais grave desde a fundação do Paquistão, em 1947.
A forma como essa crise se resolver determinará o futuro do Exército paquistanês, o futuro da guerra do Afeganistão e muito mais. A notícia de que um general brigadeiro paquistanês foi preso por causa de sua ligação com um grupo radical islâmico, Hizb ut-Tahrir, é apenas o último de uma série de eventos que abalaram essa nação. No ano passado, dois funcionários públicos paquistaneses de alto escalão foram mortos a tiros, um deles por seu guarda-costas. No mês passado, militantes bem armados atacaram uma base naval importante em Karachi, uma operação que precisou de ajuda interna.
Também no mês passado, um corajoso jornalista paquistanês, Syed Saleem Shahzad, que contou em detalhes a crescente presença de extremistas nas Forças Armadas paquistanesas, foi torturado e morto, quase certamente pelo diretório da Inteligência Interarmas do Paquistão (que nega a acusação). Fora o caso de Osama Bin Laden, escondido durante anos em uma cidade militar.
As Forças Armadas paquistanesas tradicionalmente eram vistas como uma organização secular disciplinada. Os indícios agora são conclusivos de que elas foram infiltradas em todos os níveis por radicais islâmicos violentos, inclusive simpatizantes do Taleban e da al-Qaeda. Também há fortes evidências de uma mudança básica na atitude dos militares do Paquistão. No mês passado, o embaixador paquistanês nos Estados Unidos, Husain Haqqani, foi convidado a falar na Universidade Nacional de Defesa de seu país. Haqqani perguntou à plateia: “Qual a principal ameaça à segurança interna do Paquistão?”. Ele sugeriu três categorias: “De dentro (do Paquistão)”, “Índia”, “os Estados Unidos”. Muitos votaram na terceira opção.
A votação é coerente com um documento divulgado pelo WikiLeaks, um despacho de 2008 de Anne Patterson, embaixadora dos EUA no Paquistão, expressando seu choque com o alto nível de antiamericanismo na próxima geração de líderes da elite militar do Paquistão.
A ideologia islamista está substituindo a estratégia. Por 60 anos, as Forças Armadas paquistanesas concentraram-se em sua rivalidade com a Índia. Muitos elementos nessas Forças Armadas parecem estar mudando de obsessão, e os EUA estão substituindo a Índia como princípio organizador em torno do qual os militares paquistaneses entendem seus interesses de segurança nacional. Se isso acontecer, não apenas a guerra do Afeganistão terá sido perdida, mas o próprio Paquistão estará perdido.
As forças paquistanesas foram infiltradas em todos os níveis por radicais islâmicos violentos
Depois da captura de Bin Laden, os militares do Paquistão despacharam o primeiro-ministro Yousaf Raza Gillani para Pequim para tentar afagar os chineses. “Pedimos a nossos irmãos chineses que construam uma base naval em Gwadar”, disse Chaudhary Ahmed Mukhtar, ministro da Defesa do Paquistão. Gillani voltou triunfalmente, alegando que conseguira o acordo. Os chineses, no entanto, são espertos demais para entrar nesse jogo antiamericano e humilharam os paquistaneses, negando publicamente a história.
O Paquistão pensa realmente que o melhor caminho é ter como adversário os Estados Unidos, adulando militantes e tornando-se vassalo da China? Seus exemplos são Coreia do Norte e Birmânia? Ou o país quer esmagar os movimentos jihadistas que o estão destruindo, integrar-se à economia global e tornar-se uma democracia real? Essas são perguntas que o Paquistão tem de fazer a si mesmo. Os EUA, por sua vez, tendo desembolsado US$ 20 bilhões em ajuda para o Paquistão na última década – a maior parte para as Forças Armadas–, precisam fazer suas próprias perguntas.
Fonte: ÉPOCA

0 comentários:
Postar um comentário