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domingo, 10 de julho de 2011

Presidente Dilma! seja sensata, desista da Copa e Olímpiadas agora. Com certeza a vergonha será menor

Antes tarde do que nunca

A explicação, que parece risível, é dada de maneira séria por autoridades: as obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016 não sofrerão atrasos. Vai dar tudo certo.

Aos fatos: a Arena das Dunas, em Natal, RN, aguarda propostas de parceria. Outros empreendimentos estão em fase inicial. E mais, dos 12 estádios que serão construídos, cinco correm o risco de se transformarem em “elefantes brancos” por falta de torcedores suficientes e altos custos de manutenção.

[presidente Dilma desista do sonho megalomaníaco do seu antecessor o Ignorantácio da Silva e chame a FIFA e o COI e entregue o 'direito' de realizar os dois eventos.
É melhor ter coragem para assumir agora, de forma expontânea, que o Brasil não vai dar conta de realizar os dois eventos do que ter que ouvir daqui a dois anos da FIFA e do COI o que agora a senhora já sabe e todos os brasileiros sensatos.
Presidente! a senhora abrindo mão da realização dos eventos evitará uma imensa roubalheira e pode ser que consiga pelo menos resolver o problema da saúde em nossa País.
Sem exageros, cada capital de estado precisa no mínimo de dois hospitais grandes - sái, incluindo o DF, são 56 hospitais e a maior parte dos estados precisa de um hospital em uma cidade que divida com a capital - inclusive por questões de distância - o atendimento ao milhões de doentes que estão morrendo a míngua.
Se a senhora tiver a coragem - que muitos imaginaram e alguns ainda imaginam que tem - e investir nos hospitais e minorar o problema da saúde pública, os da EDUCAÇÃO, INFRAESTRUTURA e outros o futuro presidente cuidará.]

A novela sobre a preparação do Brasil para sediar os dois maiores eventos esportivos mundiais segue um enredo que tem tudo para se tornar sucesso de público e de mídia, por exibir vasto painel do temperamento nacional. Abriga traços do caráter nacional, a começar pelo desleixo, passando pela improvisação, entrando pelo jeitinho e chegando à malandragem, por conta da inferência de que o atraso no calendário de obras é algo deliberado. Teria o fito de driblar a montanhosa burocracia e, desse modo, livrar a licitação de projetos de complicações, liberar recursos de forma ágil e no fluxo adequado, garantindo a satisfação de todos os “jogadores” da copa preparatória.

O afogadilho seria sinônimo de esperteza e não de improvisação, sob a lógica invertida de “não fazer hoje o que pode ser feito amanhã”. E assim o Brasil pode levar a taça de campeão de novo escopo da administração: “a emergência programática”.

De início, a lembrança: o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol em 30 de outubro de 2007. De lá para cá, em termos práticos o resultado fica próximo de zero. É evidente que, sendo a paixão nacional, o futebol abre intenso foro de debates, acende fogueiras de vaidades e impulsiona visões conflitantes entre os atores envolvidos na organização do mega evento: times e torcidas, cartolas, cidades-sede da Copa, autoridades governamentais, políticos, empreiteiras e a formidável malha de prestadores de serviços.

Cada qual quer tirar proveitos – e proventos – da gigantesca teia de interesses, sabendo-se que não haverá rigidez no controle dos orçamentos. Lembre-se que as obras para os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007, foram orçadas inicialmente em R$ 400 milhões. Acabaram em R$ 3,4 bilhões, deixando, ainda, extensos espaços ocupados por “elefantes brancos”.

E qual será o orçamento para os dois eventos? Uma incógnita. A decisão de tornar esse orçamento sigiloso – aprovada pela Medida Provisória 527, que cria o Regime Diferenciado de Contratações – faz parte da estratégia de evitar obstruções, o que, para uns (empreiteiros, por exemplo) seria medida de bom senso e, para outros (organizações não governamentais), brecha para os dutos da corrupção.

Se houver recurso a rodo, é evidente que o cronograma de obras, mesmo sob aperto, deverá ser cumprido. Tecnologia, gestores e parceiros é o que não faltam para tocar o conjunto.

Mas, sob o prisma do rigor técnico, dentro do qual se inserem os projetos executivos, a quantidade e a qualidade de materiais, o controle das etapas, a lupa sobre preços e o superfaturamento, a rígida obediência aos parâmetros sócio-ambientais, a preparação da infra-estrutura e, obviamente, a análise sobre uso futuro dos equipamentos, há um imenso acervo a ser examinado. Coisa que exigiria muito tempo.

Na esteira da pressa, o Risco - Brasil sobe aos píncaros. Veremos na paisagem um portentoso elenco de obras, algumas chamando a atenção pela pujança estética, mas, no obscuro limite entre os territórios do público e do privado, vicejarão sementes de improvisação, que produzirão colheitas de irresponsabilidade nas frentes das obras.

Essa é a química que explica no nosso ethos traços de negligência, desleixo, displicência, relaxamento, bagunça e vivacidade.

A pergunta emerge naturalmente: ante tão flagrante constatação, por que não se muda o ritual? Por que não se fez um planejamento em prazo adequado? Ora, o Brasil cultiva o gosto pelo instantâneo, pelo provisório. Prefere-se, por aqui, administrar o varejo e não o atacado. É mais vantajoso apagar incêndios que preveni-los. Coisas planejadas com muita antecedência parecem não combinar com a alma lúdica brasileira, brincalhona, irreverente.

Se não fosse obrigado a enfrentar o batente para sobreviver, o brasileiro adoraria passar o ano inteiro na folia. Oswald de Andrade traduziu, um dia, tal estado de espírito ao versejar: “quando dá uma vontade louca de trabalhar, eu sento quietinho num canto, e espero a vontade passar”.

Ademais, como se procurou argumentar, é perceptível uma aliança entre parceiros para deixar para a “última meia hora” o que poderia ser feito “na última hora”. Haverá menos fiscalização, menos burocracia, senões e mais apoios.

Da parte de cima da pirâmide social, a expectativa é de que o Estado continue a equilibrar o triângulo que lhe dá sustentação: o poder político, a gestão pública e os círculos de negócios. No caso dos eventos esportivos, o triângulo é formado pela Autoridade Olímpica e Comitê Olímpico, que farão a administração; o poder político, que ditará as regras do jogo (por exemplo, votação do Regime Diferenciado de Licitações) e os negócios, onde estão os parceiros privados dos empreendimentos.

E quanto aos “cinco elefantes-brancos” (estádios de Brasília, Cuiabá, Manaus, Natal e Recife), que, após a Copa, poderão gerar grande prejuízo por falta de contingentes necessários para torná-los auto-sustentáveis?

País que aprecia o status provisório, essa questão será analisada nas calendas. Cada imbróglio no seu devido tempo. Quando aquele momento chegar, os figurantes pegarão carona no jeitinho e arrumarão verbas para dar nova finalidade às edificações, incluído sua derrubada.

E assim, o Brasil vai rolando a bola e brandindo o slogan: “antes tarde do que nunca”. Afinal, fazê-las “antes cedo do que tarde” daria muito na vista. E isso, convenhamos, prejudica a visão (e os negócios) dos parceiros.

Fonte: Gaudêncio Torquato - Blog do Noblat

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