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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Presidente Itamar Franco, lembranças e legado

- E o posto médico de Caicó?

Ainda hoje acho que deu para notar minha cara de absoluto espanto, sentado ali à mesa do Presidente da República, pela primeira vez na vida.

Caicó?!

Meu chefe, e Ministro do Planejamento (eu era seu secretário executivo), me olhava entre inquisitorial e preocupado. Na coluna ao lado da mesa, um busto em pedra de Tiradentes ostentava uma corda no pescoço...

- Caicó?!, ecoei. - Fica no Rio Grande do Norte?

O Presidente Itamar Franco não se mexeu. À nossa frente, dois enormes calhamaços com o Orçamento Geral da União, os bilhões de reais, os juros da dívida pública, a previdência, a saúde e a educação do Brasil. Em resumo, tudo que o governo iria arrecadar e gastar pais afora em um ano!

E o Presidente nos pergunta justo sobre um posto de saúde... em Caicó? Se ao menos fosse um hospital, pensei aflito.

Grave, o Presidente tornou a cobrar. - Sim, Senhor Secretário, Caicó, no Rio Grande do Norte. Eu prometi ao povo de lá que faria o posto de saúde e ele tem que estar aí.

Caicó teve o seu posto de Saúde, claro. E eu tive o primeiro contato com a atenção do Presidente aos detalhes, uma face de sua personalidade - formal, reservada e dada a gestos ora largos, ora de brava e “empacada” defesa dos seus pontos de vista.

Aquele senhor de cabelos brancos, voz pausada e baixa e de modos algo a antiga, ao lado de suas preocupações miúdas, deixa um amplo legado ao Brasil, sendo três as suas principais contribuições:

Liderou a transição entre o impeachment de Collor, com todo seu potencial de crise democrática, e entregou o país a seu sucessor, sem se desviar ou ceder a pressões e tentações.

Segunda e decisiva contribuição: o Plano Real, coordenado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que devolveu a esperança aos brasileiros e serviu de base para a reorganização progressiva do Estado, da moeda, finanças, salários e investimentos.

E, por fim, a exemplaridade no exercício da política, subordinada à ética e orientada ao bem comum. Isso num Brasil onde política e políticos, na percepção mediana, mal se distanciam de marginais.

Dotado de lendária e idiossincrática firmeza, Itamar às vezes sobrepunha sua personalidade à racionalidade política, como no caso da “guerra” entre Minas e o Planalto, detonada pela renegociação das dívidas do estado, quando chegou a distribuir tanques e a PM em torno do Palácio da Liberdade, sede do governo.

Em contrapartida, teve a grandeza de aceitar a continuidade das privatizações, às quais era contrário, ao se convencer que eram imprescindíveis ao saneamento fiscal das contas nacionais e no combate à hiperinflação.

Ou ainda, após difíceis negociações com a equipe econômica sobre não repetir os erros do Plano Cruzado, como o congelamento de preços.

Tempos depois, tive um pequeno entrevero com o ex-presidente, por conta da assinatura de um decreto polêmico. O que o levou a enviar Henrique Hargreaves, seu chefe da Casa Civil, para sondar minha disposição a respeito de sua filiação ao PPS, partido pelo qual viria a se eleger senador por Minas Gerais.

Respondi-lhe que meu afeto e gratidão permaneciam intactos e que seria um prazer e uma honra tê-lo como companheiro de partido.

Eleito senador, Itamar Franco logo despontou como um dos líderes da oposição, pela combatividade e firmeza de posições, características pessoais que o acompanharam por toda a vida.

Por tudo que foi e fez, o ex-presidente merecia as honras da Nação nas casas que enobreceu com sua dignidade e retidão, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Ele, entretanto, seguirá direto de São Paulo, onde faleceu, para sua Juiz de Fora e, de lá, para Belo Horizonte.

Esse périplo final, exclusivamente mineiro, talvez traduza a mágoa de quem se deu tanto e, a seu juízo, não teve o devido reconhecimento dos seus pares e da opinião pública.

É pacífico, porém, que o presidente Itamar Franco será lembrado com o respeito devido aos que serviram o país sem dele servir-se jamais.

Por: Raul Jungmann - ex-deputado federal pelo PPS de Pernambuco

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