Ataque de extremista de direita lembra período em que Noruega foi governada por fantoche de Hitler
Os atentados do extremista de direita Anders Behring Breivik despertaram na Noruega uma lembrança sombria do passado. Como na Finlândia, que era aliada de Hitler, os nazistas encontraram uma minoria nazista, liderada pelo norueguês Vidkun Quisling, quando invadiram o país em 1940. Enquanto na Dinamarca - que foi invadida na mesma época - pescadores arriscavam suas vidas para salvar judeus, na Noruega foram os aliados de Quisling que assumiram com toda a convicção a tarefa de deportá-los. Quisling e seu partido nacionalista "Nasjonal Samling" eram tão detalhistas quanto os colegas alemães na definição das raças "superiores" e "inferiores". À frente do governo marionete durante a ocupação, ele classificava desafetos como "judeus", "meio-judeus" e "judeus em um quarto".- Quando os nazistas chegaram, enfrentaram a resistência, principalmente nas montanhas do Norte, mas contaram, por outro lado, com a ajuda dos próprios noruegueses para a deportação dos poucos judeus que viviam no país - diz Ulrich Brömmling, historiador alemão que vive em Oslo e há 20 anos pesquisa a história da Escandinávia.
Durante a Segunda Guerra, o jornal norueguês "Fritt Folk" divulgava as manifestações de ódio racista de Quisling. Ao argumentar por que a "solução final" (extermínio de todos os judeus) era importante, ele dizia: "Os judeus causaram mais danos na Noruega do que em outros países onde têm uma população maior".
Escandinávia tinha papel estratégicoA Escandinávia ocupava um papel estratégico nos planos de Adolf Hitler. Se as ocupações dos países eslavos tinham em vista dizimar grande parte da população, deixar outra parte como mão de obra escrava e as terras desocupadas como espaço para a expansão de povos de origem alemã, os escandinavos eram vistos como "arianos" e deveriam fazer parte da "Grande Germânia" depois da "vitória final". Um tratamento especial era planejado para a população nativa de Dinamarca, Noruega e Finlândia. As declarações antissemitas de Quisling não chegavam a ser algo estranho em um país que tinha uma tradição antissemita e onde era proibido o ingresso de judeus até 1851. Antes disso, até 1814, quando a Noruega era parte da Dinamarca, vigorava a lei dinamarquesa que permitia aos judeus entrar e morar no país, desde que tivessem uma licença especial de uma autoridade.
Um dos pioneiros na luta pelos direitos dos judeus foi o escritor Henrik Wergeland, filho de um pastor protestante nascido em 1808 que aos 23 anos começou a combater o preconceito contra os judeus. Em 1851, seis anos depois da morte de Wergeland em Oslo, suas ideias foram aceitas e, finalmente, a lei que proibia o ingresso de judeus no país foi abolida. Segundo o Centro de Pesquisa do Holocausto de Oslo, criado em 2006 como um dos primeiros a estudar o envolvimento da Noruega com os nazistas entre 1940 e 1945, quando as tropas alemãs ocuparam a Noruega viviam 2.200 judeus no país. Destes, 767 acabaram deportados para o campo de extermínio de Auschwitz. As operações de deportação dos judeus eram comandadas por Knut Rod, chefe de polícia de Oslo, que seguia com maior afinco do que os finlandeses a politica de perseguição dos judeus, embora a Finlândia fosse aliada da Alemanha nazista desde 1940.
Depois da guerra, Quisling foi condenado à morte e executado, mas Knut Rod, o responsável pelas deportações, foi absolvido e continuou na polícia de Oslo até 1965, morrendo em 1986. Para Ulrich Brömmling, o caso Knut Rod revela como os noruegueses se recusaram a admitir sua parcela de culpa pela colaboração. Havia forte resistência à Alemanha nazista no país, mas uma minoria influente se aliou a Hitler. - Depois da guerra, falava-se apenas na resistência, na luta heroica contra Hitler. Ninguém queria falar sobre como noruegueses deportaram judeus e ajudaram Hitler a tomar posse do país - lembra.
Colaboracionismo era assunto tabuDurante muito tempo, o assunto permaneceu tabu na Noruega. Só há cerca de 15 anos teve início uma discussão nacional sobre o nazismo no país. Detalhes foram revelados em 2005 pelos historiadores Trond Eriksen e Hakon Harket, coautores do livro "Ódio contra judeus", que conta como noruegueses lutavam com tropas alemãs na frente Leste, na chamada "Divisão Wiking", que teve participação ativa no extermínio dos judeus da Ucrânia.
Já a Dinamarca, invadida na mesma época, entregou-se imediatamente, pois as tropas do país não tinham como enfrentar a poderosa "Wehrmacht" (Forças Armadas) alemã. Mas as tentativas bem-sucedidas de dinamarqueses de salvar judeus causaram fúria no ditador alemão e foram mencionadas por Adolf Eichmann, o arquiteto do Holocausto, ainda durante o seu julgamento em Israel, em 1961: "A Dinamarca nos causou mais dificuldades do que qualquer outro país", disse.
Apenas em 2 de outubro de 1943, pescadores dinamarqueses e seus ajudantes salvaram 7 mil judeus, que foram transportados de barco para a Suécia. No país, que conseguiu ficar neutro durante a guerra, também havia um forte movimento fascista, que só não conseguiu chegar ao Parlamento por estar pulverizado em 90 organizações. Assim mesmo, em fevereiro de 1939, foi realizado por ordem do governo um censo para o registro dos judeus na Suécia.
Depois da guerra, a Escandinávia se desenvolveu como uma das regiões mais democráticas do mundo. Mas em 1951, os neonazistas começaram a se organizar. Em maio daquele ano, neonazistas de toda a Europa tiveram um encontro na cidade sueca de Malmo. E no Festival Nordisk são repetidas todos os anos as teses sobre a possível "superioridade racial dos povos nórdicos".
- Um elo de ligação com a época do nazismo de Hitler é a ideia do valor da raça, do povo do Norte, alto, louro, de olhos azuis, uma ideia que foi adotada também por Anders Behring Breivik - avalia Brömmling.
Nos últimos anos, as ideias antigas foram misturadas com o medo do Islã, com o temor de que mais imigrantes pobres de países muçulmanos reduzam o padrão de vida dos escandinavos.
- A imagem do inimigo dos direitistas escandinavos não é mais a dos judeus, mas sim de muçulmanos e outros imigrantes pobres, que os extremistas veem como responsáveis pelo surgimento de multiculturalismo onde nem todos são mais louros de olhos azuis - observa Brömmling.
Fonte: Graça Magalhães-Ruether

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