A infeliz idéia do Agnelo
Tudo vai parecer maravilhoso. Mas, na hora da chegada e saída dos carros ao estacionamento gigante o engarrafamento vai ser o mesmo das pistas que tem quatro faixas de rolamento - trânsito flui maravilhoso - e chegam em um viaduto e as 4 faixas se transformam em duas ou três
| A construção de estacionamento subterrâneo na Esplanada dos Ministérios tem duas leituras. De um lado, a obra atenua o drama de motoristas que, chegando ao trabalho, não têm onde deixar o veículo. Ajuda também as pessoas que têm necessidade de resolver problemas em órgãos situados no Eixo Monumental e são forçadas a dar voltas e voltas até localizar uma vaga disponível. Encontrar espaço seguro destinado a esse fim constitui economia de tempo, combustível e estresse. Mais: devolvem-se a Brasília a amplidão desenhada por Lucio Costa e a visão da beleza arquitetônica de Oscar Niemeyer, hoje amesquinhadas pelas filas de carros ao longo de meios-fios. Em suma: cria-se a fantasia de que a capital da República voltou a ser o paraíso das quatro rodas. Mas existe o outro lado da moeda. O estacionamento ora em cogitação desempenha o mesmo papel do alargamento de vias e da construção de viadutos. Resolve aparentemente os transtornos enfrentados pelos condutores de automóveis. A facilidade estimula o aumento da frota. E, tal como ocorreu com as demais obras que tiveram o mesmo objetivo de tornar mais fácil o vaivém no asfalto, o estacionamento subterrâneo logo será insuficiente para fazer frente à nova realidade. Os congestionamentos e a violência no trânsito se agravarão. A saída por que todos esperam privilegia o cidadão em vez dos carros. Trata-se da oferta de transporte público de qualidade. A exemplo de metrópoles mais populosas e mais antigas que Brasília, o sistema integrado de trens, ônibus e metrôs deve constituir a primeira opção de adultos e crianças. Veículos modernos, pontuais e confortáveis dirigidos por profissionais qualificados têm de ser postos à disposição dos moradores. Bicicletas também precisam figurar entre as possibilidades seguras de levar e trazer cidadãos. A topografia da cidade é ideal para ciclistas. Em Londres, por exemplo, bicicletas circulam nas mesmas pistas dos coletivos. Ônibus e metrôs têm espaço para transportá-las com tranquilidade para pontos próximos ou distantes. Em suma: tirar o carro da garagem não deve ser imposição, mas escolha. Na campanha eleitoral, candidatos de todos os partidos prometeram arrancar a capital do atraso que representa a dependência do transporte individual e introduzi-la na modernidade da interligação de trens, ônibus e metrôs. Agnelo Queiroz não fugiu à regra. Espera-se que as palavras se transformem em atos. O estacionamento subterrâneo da Esplanada não deve relegar a segundo plano a melhora substantiva dos meios coletivos de locomoção. A prioridade é o sistema público. |

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