Ustra dirigia tortura, afirmam testemunhas
Em audiência no fórum, Vannuchi relata agonia de Merlino, após suplício nos porões do DOI-Codi; ex-comandante não comparece e será ouvido em Brasília
Em audiência na 20.ª Vara Cível do Fórum João Mendes, no coração de São Paulo, cinco testemunhas arroladas pela família do jornalista Luiz Eduardo Merlino relataram ontem atos de tortura a que ele foi submetido há 40 anos nas dependências do DOI-CODI - unidade do antigo II Exército - e atribuíram a violência ao coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra, então major e comandante daquela unidade militar.
Declarou a testemunha Paulo Vannuchi, ex-ministro de Direitos Humanos do governo Lula, que naquele ano, 1971, também foi capturado e encontrou Merlino agonizante nos porões. "Na porta da cela 3, um jovem foi trazido e colocado em uma mesa escrivaninha para receber massagem de um enfermeiro que usava calça verde-oliva, que tinha um nome boliviano, traços indígenas. Essa massagem foi na porta da minha cela. Eu perguntei ao rapaz o seu nome, ele respondeu com uma fala muito enfraquecida, eu não entendi, achei que era Merlin. Eu era estudante de Medicina, notei que a massagem era feita em uma das pernas com um quadro de cor escura, cianose, risco de gangrena."
Enquanto fazia seu relato, Vannuchi desenhou um croquis da carceragem e entregou-o à juíza Claudia de Lima Menge, que conduziu os trabalhos de forma objetiva. Ela indagou aos depoentes se foram torturados ou se testemunharam agressões. "Ele (Ustra) comandou todas as sessões de tortura", afirmou Vannuchi. [pelo que se conclui do depoimento do revanchista ‘vannuchi’, o mesmo apenas viu alguém sendo massageado, sendo a causa da massagem, no entendimento do depoente, uma gangrena. Não existe nenhum elemento que suporte a dedução do mentiroso ‘vannuchi’ – nos tempos em que o Brasil era um país sério, o indivíduo que mentia em juízo, recebia voz de prisão do próprio juiz e saía do Fórum algemado.]
A praça do fórum recebeu manifestantes que empunhavam cartazes, faixas e fotos de Merlino e de muitas dezenas de desaparecidos políticos. "Cadeia para o Ustra, Justiça para Merlino", pediam.
Disse a testemunha Joel Rufino, professor de 70 anos: "Fui preso um ano depois da morte do Merlino. Ouvi do carcereiro Oberdan que ele tinha sido barbarizado, as pernas ficaram gangrenadas e a única forma de salvá-lo era a amputação". [um ano depois que o Merlino morreu, um carcereiro informou para mais uma testemunha de ‘ouvir dizer’ que o morto havia sido barbarizado.]
Merlino estaria com 63 anos. Integrante do Partido Operário Comunista (POC), ele foi preso em Santos, na noite de 15 de julho de 1971. No dia 19, seu corpo foi levado para o Instituto Médico Legal. A versão oficial: tentou fugir de uma escolta e foi atropelado na estrada. [era muito comum, ainda hoje costuma ocorrer, que o marginal preso, se desespere e tente empreender fuga e seja atropelado. Para evitar tal fato é que deveria se tornar lei no Brasil que o preso, para sua própria segurança, fosse sempre algemado nos pulsos e tornozelos. Mas, como essa lei não existe e nem existia nos tempos em que o coronel Ustra chefiava o DOI-CODI, nem por um eventual descuido com a segurança do preso Merlino, o coronel Ustra pode ser acusado.]
A ação contra Ustra, de 78 anos, busca reparação por danos morais. Ele não foi ao fórum. Será ouvido em Brasília, onde mora. "Quero saber por que ele não veio. Se não torturou, deveria vir à Justiça. Ele não tem coragem?", protestou Clara Charf, companheira de Carlos Marighela, morto em 1969.
"Ele me torturou pessoalmente, atiçava os outros torturadores", afirmou a paisagista Leane Ferreira de Almeida. "Eu ouvi um enfermeiro no DOI falar que não tinha mais jeito, que as pernas (de Merlino) estavam necrosadas. Eles colocaram o Merlino no porta malas de um carro, o corpo inerte. Não sei se ele estava vivo", disse Leane.
"Ustra nega tudo, diz que jamais participou de tortura", afirma o advogado Paulo Esteves, defensor do ex-chefe do DOI. "Os antecedentes dele não são os de pessoa violenta. Ustra comandou o DOI, mas não comandou torturas. Nunca se envolveu em absolutamente nada que pudesse ferir a dignidade de seu semelhante. Violência é contra os princípios religiosos dele."
Merlino não morreu no DOI-CODI, mas atropelado. "Isso consta de um inquérito da Justiça Militar. O jornalista foi levado para ajudar na identificação de outros militantes, tentou fugir e foi atropelado", disse Paulo Esteves ao Estado.

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