Washington e Nova York dez anos depois
Como Nova York se recuperou do fantasma dos atentados terroristas de 2001, está erguendo um novo World Trade Center – e mira os olhos no futuro
O quarteirão vazio em meio a tantos prédios tornava impossível esquecer a lacuna na paisagem do sul de Manhattan. Onde as Torres Gêmeas do World Trade Center se impunham, com seus 110 andares, acumulavam-se entulho e dor. Não mais. Dez anos depois da destruição do símbolo da pujança americana, emerge dali um novo arranha-céu. Ainda com 80 andares, a construção ultrapassará as torres originais. Quando ficar pronto, em 2013, o One World Trade Center será o prédio mais alto dos Estados Unidos, com 541 metros. A seu lado, quatro novas torres. Nessa obra, está refletido o sentimento nova-iorquino ao fim da década. Embora o pior ataque terrorista de todos os tempos tenha deixado marcas indeléveis na história da cidade, do país e do mundo, eles não olham para trás. A melhor imagem para ilustrar seu sentimento são as duas fontes iluminadas com cascatas d’água, que serão inauguradas no próximo dia 11 no exato local onde estavam as Torres Gêmeas. O memorial terá parapeitos de bronze com os 2.977 nomes de homens, mulheres e crianças que perderam a vida em Nova York, na Virgínia e na Pensilvânia – além das seis vítimas do ataque à bomba contra o WTC em 1993. Como a água escoando, esvai-se o legado sombrio do medo deixado pelo terror. Como os nomes inscritos no bronze, resta a memória – e a certeza de que, sem ela, é impossível construir o futuro.
A Nova York jovem tem a dimensão do que ocorreu dez anos atrás. Mas chegou à fase adulta sem ter os atentados como referência de vida. Filha de pai brasileiro, a nova-iorquina Alessandra Bifulco, de 20 anos, é um exemplo dessa nova geração. Quando a Torre Norte virou cinzas naquela manhã de terça-feira, Alessandra estava na escola, em Long Island, região metropolitana de Nova York. Pouco depois do início das aulas, os professores interromperam tudo o que estavam fazendo para acompanhar os eventos pela televisão. Sua mãe, Valerie, já sabia o que ocorrera antes de as emissoras transmitirem ao vivo, pois sua melhor amiga era casada com um bombeiro que ajudou no resgate às vítimas do atentado. No carro, no caminho da escola da filha até sua casa, Valerie manteve-se em silêncio. “Acho que ela não sabia como contar para mim”, diz Alessandra. Em casa, ela acompanhou a queda da Torre Sul, 29 minutos depois da primeira. “Todos nós choramos muito.” Apesar de ter passado quase o dia todo com os olhos grudados na tela, a jovem teve uma ideia melhor do significado daquelas imagens muito tempo depois. “Acho que entendi mesmo quando tinha uns 15 anos”, diz Alessandra. “Fiquei muito sentida naquele dia, mas não tinha capacidade de dimensionar aquilo tudo.”
Mesmo ciente da grandeza do evento que testemunhou, ela demonstra não se preocupar com o passado nem com uma eventual repetição daqueles dias de sofrimento. Quase no fim do curso de relações públicas da Universidade de Rhode Island, Alessandra trabalha como promotora de eventos e adora sair à noite com as amigas. Nessas ocasiões, diz ela, não há muito espaço para falar sobre o 11 de setembro. “Não é porque há algum tipo de tabu entre nós. Simplesmente, não nos causa preocupação. Conversamos sobre qualquer outra coisa”, afirma a jovem.
Tal desprendimento pode surpreender quem tenta compreender de longe o que é viver numa cidade ainda marcada por um ato bárbaro de terrorismo. Mas Alessandra sente Nova York “muito mais segura” do que há dez anos. Basta circular por parques, praças e estações de metrô para entender esse sentimento. Às vésperas do aniversário dos ataques, é impossível caminhar por qualquer ponto de Manhattan sem cruzar com um policial. Não é raro ver pessoas serem abordadas por algum oficial sem razão aparente. Chama a atenção também a presença dos veículos de “resposta rápida”, prontos para situações emergenciais, e de homens do esquadrão antiterror. A vigilância ostensiva parece não trazer tensão ou incômodo à população, mas uma sensação de segurança e tranquilidade.
A confiança no poder de mobilização da cidade ante alguma nova tentativa de agressão está nas palavras de Julia Park, de 25 anos, funcionária do fundo de investimentos Oppenheimer. “Eu me sinto muito segura aqui. Você sabe que eles (os policiais) estão fazendo o melhor. Nunca se sabe se poderá acontecer algo ruim outra vez, mas não seria por isso que deixaria de morar em Nova York”, afirma Julia. Assim como Alessandra, ela estudava na hora em que os aviões pilotados por suicidas desencadearam as cenas que abalaram o mundo. Julia vivia na Pensilvânia, Estado onde caiu o Boeing 757 sequestrado para se chocar contra o Capitólio, em Washington, mas impedido de completar a missão depois que os passageiros lutaram com os terroristas para tirá-los do comando da aeronave. “Meus amigos e eu ficamos muito confusos sobre tudo o que estava acontecendo. Estava tudo ali, em frente aos nossos olhos, na televisão. Foi terrível.” Três anos depois, ela foi estudar na New York University. Apesar da memória do 11 de setembro, ficou entusiasmada com a possibilidade de fazer parte da vida nova-iorquina. “O que aconteceu no World Trade Center nunca foi relevante para mim no momento de escolher a cidade onde eu iria morar.”
Mesmo para moradores que já estão em uma etapa diferente da vida, com outro tipo de responsabilidade, o risco do terror está ausente do cotidiano. “Viajar de avião ficou mais restrito, e a polícia revista bolsas com frequência nas estações de ônibus, trens e metrô. Mas não reclamo. São raríssimos os momentos em que penso que minhas filhas podem estar expostas a algum tipo de risco”, afirma o analista financeiro Michael Brown, de 40 anos. Para ele, Nova York nunca esteve tão bem vigiada. Casado e pai de três meninas pequenas, de 6, 4 e 2 anos, Brown diz que “o 11 de setembro foi sendo esquecido pelas pessoas no dia a dia”. Um ano depois do ataque, uma pesquisa do Instituto Gallup mostrou que 75% dos americanos administravam a vida exatamente como faziam antes da queda das torres. Em agosto de 2006, segundo um levantamento do jornal The Washington Post, 30% já não sabiam mais dizer o ano em que o atentado acontecera.
Dez anos depois, o comportamento de boa parte dos nova-iorquinos diante do que passaram naquela manhã de setembro é compreensível, diz o psicólogo Michael Lindell, diretor do Centro de Recuperação e Redução de Riscos da Universidade do Texas. “Para a maioria das pessoas, é uma reação normal voltar a sua rotina sem problemas depois de seis meses de um evento traumático, mesmo que seja algo como o 11 de setembro”, afirma Lindell. “Mas é evidente que quem perdeu parentes ou viu cenas muito fortes da tragédia demora mais para superar.” Segundo dados dos três programas de saúde da prefeitura de Nova York dirigidos às vítimas dos ataques, pelo menos 10 mil bombeiros, policiais e civis expostos diretamente aos eventos no World Trade Center apresentaram algum quadro de transtorno de estresse pós-traumático. Muitos ainda não se recuperaram. Não conseguem dormir direito, têm dificuldade de concentração, reagem de forma exagerada a alarmes ou ruídos altos e evitam tudo o que lhes faça lembrar a tragédia.
Depois do dia 11 de setembro de 2001, os americanos passaram a ter em mente uma pergunta que ganhava força sempre que ocorria um ato terrorista noutra parte do mundo: quando acontecerá de novo conosco? A magnitude dos ataques às Torres Gêmeas causou um imediato sentimento de vulnerabilidade na então inquestionável superpotência do planeta. Em outubro de 2001, o terrorista saudita Osama bin Laden, líder da rede al-Qaeda e arquiteto dos atentados, divulgou um vídeo no qual dizia que os Estados Unidos “nunca mais sentiriam o gosto da segurança”, ao menos que todos os “infiéis” deixassem a “terra de Maomé”. Naquele momento, em resposta à agressão da al-Qaeda, militares americanos estavam prestes a invadir o Afeganistão e a derrubar o regime Taleban, que abrigava o terrorista. Ainda há hoje tropas ocidentais em território afegão. Mas a nova grande investida do terror contra os Estados Unidos até hoje não ocorreu. “Houve inúmeros alertas em cada aniversário dos ataques – e nada aconteceu.
É natural que a população passe a duvidar da hipótese de tudo se repetir e de ver o terrorismo como uma ameaça real”, diz Roy Licklider, cientista político da Universidade Rutgers, em Nova Jersey. Essa tendência pode ser compreendida quando se analisa o histórico de uma pesquisa do Instituto Gallup sobre o porcentual deamericanos que listavam o terror como o “maior problema” dos Estados Unidos. Uma semana antes dos atentados de 2001, era apenas 1%. Um mês depois, o número subiu para 46%. No aniversário de um ano dos ataques, o porcentual já recuara para 19% e o terrorismo não mais ocupava o topo da lista de problemas, perdendo para a economia. Hoje, a preocupação com o tema está novamente em 1%.
A captura e morte de Osama bin Laden, em maio, foi determinante para reduzir o nível de tensão dos americanos diante da ameaça do terror. Ao longo de dez anos, a figura de Bin Laden foi um vulto incômodo não só para os Estados Unidos, mas para o mundo inteiro. Os agentes que invadiram seu esconderijo na cidade de Abbottabad, no Paquistão, encontraram evidências de que Bin Laden planejava obcecadamente um ataque no décimo aniversário dos atentados às Torres Gêmeas. Segundo o serviço de inteligência, ele se comunicou diversas vezes, por intermédio de mensageiros, com o líbio Atiyah Abd al-Rahman, então chefe de operações da al-Qaeda. O tema das mensagens era a organização e o recrutamento de terroristas para explodir um trem nos Estados Unidos em 11 de setembro. A ação lembraria os ataques à bomba executados em 2004 em Madri, na Espanha, por uma célula inspirada na al-Qaeda, que deixaram 191 mortos.
Outros papéis guardados no complexo sugeriam que Bin Laden tentaria atacar outras cidades americanas, como Los Angeles e Chicago, em datas importantes, como o 4 de julho (Dia da Independência), a abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas (em 19 de setembro) e o Natal. A preparação para esses atentados foi abortada, pois os dois mentores já estão fora de combate. Rahman, que se tornou o número dois da al-Qaeda após a queda do líder, teria sido morto na semana passada numa região remota do Paquistão, alvo de um drone, como são chamados os aviões não tripulados da CIA (a agência de inteligência dos EUA) que realizam operações secretas nas região.
Apesar de tantas baixas do lado inimigo, o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD, na sigla em inglês) vê as cerimônias marcadas para o dia 11 como eventos de alto risco. “Em seus discursos, Bin Laden falou sobre o décimo aniversário duas vezes. Eles não gostariam de voltar?”, diz Raymond Kelly, comissário-chefe do NYPD. Kelly estava no cargo em fevereiro de 1993, quando extremistas islâmicos explodiram uma bomba embaixo da Torre Norte do World Trade Center. O grupo foi financiado por Khalid Sheikh Mohammed, considerado o mentor intelectual do 11 de setembro (leia o quadro na página 82). Kelly voltou à chefia do departamento em janeiro de 2002. Desde então, convive com a tarefa de impedir a repetição da tragédia de dez anos atrás.
Até o fim da semana passada, o NYPD não divulgara os números do esquema de segurança para o dia do aniversário, mas o total de agentes nas ruas já dava uma ideia da preocupação das autoridades com a obsessão de Bin Laden, provavelmente legada a seus seguidores. A cidade passou até agora incólume a um ataque do tamanho do 11 de setembro, mas já demonstrou vulnerabilidades. Em maio do ano passado, o paquistanês naturalizado americano Faisal Shahzad quase conseguiu explodir um carro-bomba na esquina da Rua 45 com a Sétima Avenida, em Times Square, o ponto mais conhecido e visitado de Nova York. A falha dos serviços de segurança só não resultou em tragédia por causa da inépcia do terrorista, que não foi capaz de detonar os explosivos. Condenado à prisão perpétua, Shahzad diz ter recebido inspiração para o crime do clérigo americano-iemenita Anwar al-Awlaki, considerado um eficiente recrutador de terroristas pela internet a serviçoda al-Qaeda.
Naquela ocasião, o NYPD afirmou que 11 tentativas comprovadas de atos terroristas ocorreram após os atentados às Torres Gêmeas, todas fracassadas. Outro susto, este não só para os nova-iorquinos, ocorreu no Natal de 2009 e trouxe à memória os aviões do 11 de setembro. Sob ordens da divisão da al-Qaeda na Península Arábica, o nigeriano Umar Faruk Abdulmutallab carregava explosivos em sua roupa durante um voo de Amsterdã para Detroit. Tentou acionar o dispositivo em pleno ar, mas não conseguiu e foi detido. Para este ano, a divisão do FBI (a polícia federal americana) responsável por evitar ataques deve gastar US$ 2,7 bilhões em sua missão. Mas os casos envolvendo Shahzad e Abdulmutallab mostram que nem todo o dinheiro do mundo é garantia de afugentar o terror.
Enquanto a polícia tenta passar segurança à população, os nova-iorquinos se ocuparam nas últimas semanas com questões bem mais concretas que temer um ato terrorista. Há duas semanas, a cidade e parte da Costa Leste dos Estados Unidos foram surpreendidas por um terremoto de magnitude 5,8. Não houve vítimas nem grandes danos a imóveis de Nova York. Cinco dias depois, foi a vez de a metrópole sofrer com os efeitos do Furacão Irene. Embora tenha chegado a Nova York como tempestade tropical, com menos intensidade, obrigou a evacuação de quase 300 mil pessoas. As lojas fecharam em pleno fim de semana, e pouca gente se arriscou a sair de casa e enfrentar as ruas inundadas pelas fortes chuvas.
Os nova-iorquinos perceberam que também são vulneráveis a ameaças naturais, às vezes tão imprevisíveis quanto um ataque de fanáticos. Terremoto e furacão desviaram a atenção da cidade para o aniversário que se aproxima. No cotidiano das pessoas comuns, até um problema comezinho causa mais apreensão do que se preocupar com um eventual atentado. Nas ruas de Nova York, apesar do forte policiamento, não existem avisos de medidas a tomar para evitar novos ataques, mas os anúncios de exterminadores de percevejos estão espalhados por todos os bairros, além de ser presença certa em propagandas em rádios e TVs. Esses minúsculos insetos, que se alimentam de sangue de humanos e outros animais ao picá-los, tornaram-se um problema para Nova York desde o fim do ano passado. Já invadiram hotéis luxuosos, fecharam lojas requintadas e chegaram a cartões-postais, como o Empire State Building e o Lincoln Center. Como os percevejos se abrigam em fundos de armários, colchões e entre roupas guardadas, é difícil livrar-se deles quando uma casa é infestada. Sinal inequívoco de que os nova-iorquinos desfrutam uma vida normal, repleta de problemas mundanos.
O advogado Jordan Thomsen, de 37 anos, chega a dizer, em tom de brincadeira, que “as pessoas comuns hoje têm mais medo de percevejos que dos terroristas”. Thomsen faz parte da maioria que não põe o terrorismo entre suas aflições atuais. Entre 1998 e 1999, ele trabalhou como assistente em um escritório de advocacia no 56o andar da Torre Norte. Em 2001, estudava Direito na Universidade St. John’s – na hora do atentado, dirigia-se a caminho da aula. Apesar de conhecer muitos que trabalhavam no WTC, Thomsen não perdeu nenhum amigo. “Não tive nenhum temor depois do 11 de setembro nem fiquei preocupado em viver em Nova York. Quem tem medo é uma minoria”, afirma. Os atentados pouco influenciaram sua vida ao longo destes dez anos. Mas Thomsen diz que o país mudou muito – e para pior. “Não tenho nenhuma dúvida de que os Estados Unidos eram um lugar melhor até 2001. O fato de ainda mantermos duas frentes de guerra, no Iraque e no Afeganistão, só trouxe consequências negativas para nossa economia.”
Aos 21 anos, o estudante universitário Clarence Smith, nascido no bairro do Bronx, compartilha a apreensão de Thomsen. Skate à mão e visual relaxado, ele aparenta ser o típico jovem dessa geração pós-11 de setembro, que mira o futuro sem levar em consideração os atentados de 2001. Smith não gosta de viver nos Estados Unidos de hoje. “Tenho a impressão de que o país está em processo constante de degradação. Todo o dinheiro gasto em medidas de segurança e na manutenção das guerras não faz ninguém viver melhor. Em meu caso, só me sinto mais perdido, sem esperança”, afirma.
Daqui a dois anos, Smith deverá se formar em matemática e tentar seguir a carreira de professor. Enquanto isso, já há alguns meses, busca um emprego, sem sucesso. Das dez lojas com que fez contato, apenas uma lhe deu um retorno, apenas para pedir informações adicionais. Nada de uma possível oferta de vaga. Ele diz que, se a economia do país estivesse indo bem, já estaria empregado. Não é o que acontece. Em 2011, a taxa de desemprego americana tem se mantido acima de 9%. O presidente Barack Obama se vê diante de uma das maiores crises econômicas da história e tenta combater o desemprego, reduzir o deficit público e elevar a taxa de crescimento. Sem avanços significativos nessas áreas, o cenário continua desanimador.
Smith não lamenta apenas a fragilidade econômica. Diz também que os americanos, envoltos pela suspeita de um novo ataque, ficaram menos tolerantes depois do 11 de setembro. “O tratamento aos estrangeiros piorou muito, especialmente para os muçulmanos”, afirma. “Vou terminar a faculdade e me mudar para outro país.”
Mesmo quem não é nova-iorquino, mas adotou a cidade, reconhece que os atentados mudaram a forma de as pessoas se relacionarem. A baiana Maria Antônia Schuppar, de 57 anos, vive há 28 nos Estados Unidos e passou a “confiar menos no ser humano” depois de setembro de 2001. “Não me considero preconceituosa. Mas, quando vejo pessoas cobertas dos pés à cabeça, penso que pode ser alguém planejando uma maldade.”
Gerente de uma farmácia a duas estações de metrô do Marco Zero, Maria Antônia viu o segundo avião se desintegrar na Torre Sul e tudo vir abaixo pouco depois. “Lembro da correria, do choro, os gritos, das pessoas sujas daquela poeira branca, que pareciam estar numa romaria. Era muito desespero”, diz. “Tinha amigos lá. Vi pessoas se jogando dos prédios e depois ficou aquele cheiro de carne queimada e de éter, que embrulhava o estômago, por muito tempo. Não gosto muito de passar por aqui.” As lembranças ruins daquele dia não a fizeram alterar sua rotina. “O atentado mudou o mundo, mas não minha vida. Sinto-me extremamente segura aqui. Costumo sair à noite, vou assistir a shows na Broadway e chego em casa depois das 2 horas da manhã sem nenhum problema.”
O décimo aniversário dos atentados traz lembranças difíceis de reviver. Mas não se transformou num tabu em Manhattan. Vários eventos relacionados aos ataques estão previstos, de lançamentos de livros a exposições fotográficas e concertos musicais. Milhares devem se aglomerar no Marco Zero para acompanhar a abertura do memorial, e o passado doloroso certamente voltará à mente dos nova-iorquinos. O local da destruição de 2001 é a alma de uma cidade reconstruída em 2011. Crianças ou adultos que sofreram no 11 de setembro hoje enxergam no Marco Zero o futuro. A aposentada Pauline Wolf, de 91 anos, tem certa dificuldade para caminhar, mas não se cansa de circular pelas cercanias do que será o novo complexo do World Trade Center. “Tenho amigos que se negaram a voltar para cá. Mas eu amo esta área. Nos últimos dez anos, muita coisa foi reerguida, são vários prédios lindos. Isto aqui voltará a ser como era”, afirma. Na semana passada, o movimento de turistas já era intenso. Turistas que nunca foram embora. Após a tragédia, Nova York não viu uma debandada de visitantes, os números só cresceram. Em 2001, 35,2 milhões de americanos e estrangeiros viajaram para a cidade. No ano passado, foram 48,7 milhões, quase 40% a mais. O casal de italianos Tania de Luca e Antonio Esposito, em lua de mel, era a imagem da tranquilidade. “É mais seguro caminhar em Nova York do que em qualquer outra cidade”, dizia Esposito, enquanto passeava em torno do memorial. Os nova-iorquinos querem mostrar a si mesmos e ao resto do mundo que dez anos foi tempo suficiente para se recuperar. Não importa o tamanho da ferida.
Fonte: Revista ÉPOCA


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