Dez anos depois dos atentados, um diagnóstico ainda assusta milhares de americanos. Das cerca de 409 mil pessoas que viveram os ataques ao World Trade Center, entre elas parentes de vítimas, testemunhas, sobreviventes, bombeiros e socorristas, estima-se que 61 mil desenvolveram Transtorno de Estresse Pós-Traumático nos seis anos seguintes aos atentados - e muitos deles ainda tentam se recuperar. - Precisei ter muito foco para não enlouquecer. A minha vida mudou muito, trabalhei bastante nos anos que se seguiram aos ataques. Não costumo pensar no dia seguinte, mas na nova fase. - contou o arquiteto Robert Eisenstat, que estava no elevador da Torre Norte no momento do ataque.

Homem se joga do alto do WTC: imagem foi uma das mais marcantes dos ataques/AP
Logo após o 11 de Setembro, o departamento de saúde de Nova York criou três programas para tratar vítimas que, além dos problemas psicológicos, tiveram também problemas respiratórios por causa da fumaça e da nuvem de poeira que se formou depois do desabamento das Torres Gêmeas. O governo nova-iorquino estima que 25% das pessoas tratadas até hoje apresentaram problemas físicos e psicológicos, simultaneamente. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático tem um diagnóstico amplo, e muitas vezes controverso, por isso o governo faz apenas uma estimativa sobre as pessoas que desenvolveram o problema após a tragédia de 2001.
O psiquiatra e investigador do Instituto D'Or Dr. Leonardo Fontenelle explica que, apesar do transtorno ter ganhado diagnóstico oficial há 30 anos, ele está muito ligado à definição de trauma. - O diagnóstico é controverso porque os problemas começam com a definição de trauma, que vem sendo muito debatida ao longo dos anos. Tem profissionais, por exemplo, que acreditam que o trauma não necessariamente envolve pânico ou desamparo. Outros usam critérios ainda mais rígidos. - afirmou Fontenelle.
A doença, que costuma vir acompanha de flashbacks, pesadelos, ansiedade e insônia, frequentemente assume caráter crônico e é despertada após um evento de traumático, como o próprio nome denuncia. Algumas pesquisas, no entanto, afirmam que quase 90% das pessoas vivem algum tipo de trauma ao longo da vida, mas poucas desenvolvem o transtorno. Fontenelle explica que para desenvolver o estresse pós-traumático o paciente deve compartilhar o choque com sentimentos de desamparo e pânico.
Sobreviventes evitam falar sobre o trágico diaNão é raro perceber que sobreviventes do World Trade Center costumam evitar relembrar os ataques, alguns se recusam a dar qualquer tipo de entrevista. O mesmo acontece com parentes de vítimas. Apesar de não ter problema em falar sobre o tema, nem ter desenvolvido nenhuma síndrome psicológica, Eisenstat, que trabalhava nas Torres Gêmeas, hesita em dar detalhes do dia. Se para alguns, o tratamento se deu por medicamento, Eisenstat viu no trabalho sua grande terapia. Funcionário do Port Authority há mais de 20 anos, o arquiteto ajudou na reconstrução da estação que substituiu temporariamente a que ficava no pátio comum do WTC e no planejamento do transporte, entre eles da linha entre Nova York e Nova Jersey, que ficou suspensa após os ataques. - Eu tive muita sorte porque quando estava quase no térreo da Torre Norte, senti uma poeira, achei que fosse um teto caindo, mas era o outro prédio que tinha desabado. Então tivemos que subir um andar de novo e sair por outra porta, nos fundos, para não sermos expostos aos destroços e à espessa nuvem de cinzas - contou o arquiteto - Depois que saí, não olhei mais para trás e acabei não vendo as pessoas se atirando do alto da torre, o que para muitos sobreviventes foi o mais traumatizante.
O americano confessou, porém, que muitas pessoas adiantaram a aposentadoria ou pediram transferência da Port Authority, órgão que controlava o WTC. Segundo Eisenstat, só metade da atual equipe estava na entidade em 2001, quando pelo menos 800 funcionários morreram nos ataques. Mas, foi justamente o trabalho que o impediu de ficar paranoico, contou ele, que também trabalhava no complexo quando um carro bomba explodiu no estacionamento de uma das torres, em 1993. - Ajudar na reconstrução do transporte nos arredores do WTC acabou sendo muito positivo para mim - contou o arquiteto.
Fonte: Associated Press

0 comentários:
Postar um comentário