Mais autoritarismo ameaça a Argentina
A reeleição da presidente Cristina Kirchner, com 53,9% dos votos em primeiro turno, foi tão acachapante que a coloca, em termos de poder, em situação similar à de Hugo Chávez em 2005, quando a oposição venezuelana boicotou as eleições e os chavistas ganharam tudo. Só que, na Argentina, a oposição não boicotou o pleito de domingo. Ela é frágil e dividida mesmo, e Cristina venceu em 23 das 24 províncias.
A presidente surfou na euforia do resultado das exportações, inflado pela expressiva valorização das commodities agrícolas no mercado internacional. Isto deu à Casa Rosada um colchão de liquidez para impulsionar um programa de subsídios capaz de manter quase todos muito satisfeitos, protegidos dos efeitos perversos da inflação maquiada (a oficial é de 10% ao ano, a real de 30%), e o consumo em alta.
A força política que a presidente ganhou agora, inclusive aumentando as bancadas no Congresso, lhe garante os instrumentos para aprofundar o modelo kirchnerista, caracterizado por autoritarismo, concentração do poder, protecionismo comercial (péssimo para o Brasil), intervenção na economia e ataque sem trégua à imprensa profissional e independente. A ideia é que haja apenas a versão oficial dos fatos.
Outra possibilidade é que Cristina adote projetos polêmicos, como uma reforma constitucional que incluiria a reeleição indefinida, como fez seu marido e antecessor, Néstor Kirchner, quando governou a província de Santa Cruz. Este seria um traço nitidamente chavista, que exigiria maioria de dois terços no Congresso. A presidente não a tem, apesar da ampla vitória, mas poderia obtê-la via negociações políticas.
O que complica as perspectivas do segundo mandato é que a economia argentina lembra uma bomba-relógio. O país parece uma ilha da fantasia, enquanto sinais de uma tempestade iminente são tapados com a peneira da propaganda oficial. A inflação, já elevada, pode explodir. As contas do governo estão ficando deficitárias, e a fuga de capitais é estimada em US$ 2 bilhões por mês. Entre janeiro e setembro, os desconfiados argentinos compraram US$ 18,5 bilhões, para fugir do peso.
O controle de preços arruinou a produção energética, transformando um superávit de US$ 6 bilhões em 2006 num déficit esperado para US$ 2 bilhões este ano — o país passou de exportador a importador de energia. Segundo a Associação Argentina de Orçamento e Administração, os subsídios oficiais para energia e transportes até setembro foram de US$ 12 bilhões, alta de 158% frente ao mesmo período de 2010.
Tudo isso significa que Cristina começará a gastar rapidamente o enorme capital político obtido nas eleições, no dilema entre continuar com as políticas artificiais ou, num determinado momento, fazer os ajustes dolorosos que a realidade impõe. Claro que a situação poderá ficar muito mais dramática se houver um aprofundamento da crise internacional e, por exemplo, os preços das commodities caírem muito. Nesse caso, o país poderá entrar na rota de mais uma quebra.
Enquanto isso, é previsível que a Casa Rosada continue adotando doses maciças de populismo kirchnerista — apenas mais um galho da frondosa árvore peronista.
Fonte: O Globo - Editorial

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