Seu celular pode estar te escutando, sem você saber
No início de setembro, um grupo de usuários entrou com um processo contra a Microsoft. Acusam a empresa de continuar a coletar dados sobre a localização de celulares com Windows Phone 7, mesmo após o dono ter dito expressamente que não quer. Não é a primeira vez que uma acusação destas é feita contra uma empresa que põe smartphones no mercado. E é só o início. A zona cinzenta entre privacidade e celulares inteligentes ficará ainda muito complicada antes de simplificar.
É o caso de uso do microfone, por exemplo. No início de 2011, fez um certo barulho o lançamento de um aplicativo para iPhone e Android chamado Color. É uma rede social de fotografias. Quem tem Color instalado recebe pelo celular fotos tiradas por gente que está nos arredores. Funciona quase como um jogo: aquilo que você está vendo, visto por outro ângulo. Seria particularmente popular durante um concerto de rock ou qualquer outro evento com muita gente. Pois o aplicativo escuta sem avisar ninguém o som dos arredores. Para isso, liga discretamente o microfone.
No caso, faz algum sentido. Color usa o GPS do aparelho para ter certeza de que duas pessoas estão no mesmo lugar. Mas proximidade física não quer dizer que duas pessoas estão no mesmo ambiente. Alguém pode estar dentro de um teatro assistindo a seu show e, apenas a 10 metros, outro indivíduo passa tranquilo pelo lado de fora. Para ter certeza de que os dois usuários estão próximos e vivendo a mesma experiência, Color usa a assinatura do som ambiente. Se o som é o mesmo, ambos estão compartilhando da mesma experiência. Aí um recebe a foto que o outro tirou. Em caso contrário, as imagens não são redistribuídas. Não há ninguém ouvindo a conversa do outro lado de Color. Mas ao ligar o microfone sem avisar seu cliente, viola a privacidade.
IntoNow é um app para iPhone e iPad que faz coisa semelhante. Serve para quem gosta de séries de TV. Ele usa a assinatura de áudio ambiente para identificar que programa o usuário está assistindo. Aí ajuda a conectar com outros que estejam vendo a mesma coisa. Novamente: faz sentido. Mas o que parece mágica exige, no fim, que seu celular preste atenção em sua conversa. É esquisito.
Inúmeros aplicativos utilizam um sistema chamado Pinch. Serve para passar ao desenvolvedor dados sobre como ocorre a interação com o app. Se um botão é muito útil, se o tempo de uso é longo. São dados preciosos para que novas versões fiquem melhores. Mas Pinch vai além. Envia para o desenvolvedor o lugar em que o celular está. Se o cliente tem Facebook instalado, passa dados como aniversário e gênero.
No caso do processo contra a Microsoft, há um truque. Quando o cliente diz não querer passar os dados de localização do GPS, o celular não distribui mais esta informação. Mas GPS não é a única maneira de repassar localização. Se o telefone conta a que distância está das três ou quatro torres de celular mais próximas, isso já é o suficiente para uma localização precisa. Não para aí. Google, via Android, Apple, com seu iPhone, e a própria Microsoft mapeiam o local em que as várias redes WiFi estão. Assim, mesmo que o aparelho esteja com a conexão celular desligada, se ele perceber a proximidade de uma rede de internet sem fio, aquilo já é informação suficiente para que um local físico seja determinado. E, com frequência, é informado.
Ninguém pensa que um aplicativo pode estar usando sua conversa ou que esteja enviando seus dados pessoais para algum servidor distante. E, na maioria das vezes, esta informação é utilizada apenas para levantamentos estatísticos. Serve para os melhores dos fins e não há risco de que informação pessoal seja divulgada inadvertidamente. Na maioria das vezes, pois é.
Num mundo em que todos os smartphones abrem as portas para estes pequenos desvios e no qual todo aplicativo talvez esteja surrupiando algum dado sem que o cliente perceba, o risco está sempre presente. A tecnologia é excelente. Mas ainda precisamos nos educar muito a respeito de como funciona. Até para usar consciente.

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