As caras da vassalagem à FIFA
Orlando Silva é a cara da Copa 2014. Atrapalhado, atrasado, trôpego e com jeito de que nunca fica pronto a tempo. Como a presidente Dilma Rousseff acabou recepcionada pela FIFA, em Bruxelas, com o descaso já há muito demonstrado e deu o troco colocando o insignificante Silva para se explicar.
Coube-lhe atestar o Brasil submisso aos caprichos daquela que vai mandar no País durante a Copa – e não é a Dilma, é a FIFA. Em vez de seu similar Joseph Blatter, a presidente e o ministro do Esporte foram recebidos por Jerôme Valcke, secretário-geral da FIFA. Ele e Orlando Silva empatam ao menos na moral.
Os dois já estiveram envolvidos com cartões, o ministro com os corporativos (teve de devolver dinheiro, mais de R$ 30 mil, no escândalo conhecido como Caso da Tapioca), o secretário da FIFA com Visa e Mastercard (a Justiça de Nova York desfez contrato assinado por ele, que assumiu ter mentido a ambos). Os dois estiveram no limbo e planejam ressurreição, Silva já quase caiu dez vezes e fica para organizar a Copa (vê-se que não está conseguindo), Valcke chegou a ser afastado por “violar princípios” e agora se finge de dono da entidade (vê-se que está conseguindo, pois pretende ser o sucessor de Blatter e, pela quantidade de rolo, pinta como favorito).
Mesmo diante de um sujeito desclassificado a esse ponto, Dilma e Silva se renderam. Para isso, atiraram o Congresso Nacional às favas. Nas palavras do ministro, “a redação do projeto (da Lei Geral da Copa, enviada pelo governo no fim de setembro à Câmara dos Deputados) pode ser aperfeiçoada de modo que fique nítido que todas as garantias que o Brasil firmou com a FIFA deverão ser cumpridas”. Por que não fizeram isso antes de entregar o texto ao Legislativo? [única vantagem de todo esse ‘imbróglio’ – e que mesmo assim não compensa a humilhação que foi imposta a nós brasileiros (mesmo os que não votaram na ‘neurônio solitário’ estão sendo humilhados, pois ela ainda é a presidente do Brasil) é que a trabalheira de adequar os absurdos da Lei Geral da Copa aos ditames constitucionais que continuam em vigor, somada aos atrasos de obras e outros impedimentos – tornarão impossível que a COPA 2014 tenha o Brasil como país sede.]
Segundo Silva, a presidente pediu “sugestões adicionais”, pois “a redação (da Lei Geral da Copa) pode ser aperfeiçoada para evitar manipulações”. Aperfeiçoar é sinônimo de golpear? Quem vai manipular o quê? A presidente é marionete de Blatter e Silva, fantoche de Valcke? Se os chefões da FIFA estalarem o dedo, o Executivo vai tentar derrogar o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto do Idoso. Essa certeza está numa sentença com aquele linguajar técnico típico de Silva: “Num tema ou noutro, podemos suspender a lei”.
Silva deve torcer para que se suspendam as leis penais, pois vive problemas familiares relativos à organização não-governamental que resultou em nova devolução de verba pública, R$ 32 mil, e outros questionáveis R$ 272 mil. Valcke confessou que a Copa de 2022 será realizada no Qatar porque foi quem comprou. Valcke é a cara FIFA, Silva é a cara da Copa e o povo com cara de tacho, pois na conversa deles com Dilma na segunda-feira se acertaram adaptações ao “que na lei brasileira se aplica a esses eventos (copas das Confederações e do Mundo), que têm características próprias”.
Ou seja, confirmou-se o que disse aqui e no Plenário do Senado: até 31 de dezembro de 2014 teremos um estado dentro do estado. Tanto que a presidente, se quiser, que se reúna com a segunda divisão. Pensava-se, inicialmente, que a viagem de Dilma seria para passar uma carraspana na direção da FIFA, impor respeito, dizer que não sacrificaria os idosos, não retroagiria nas relações de consumo e exigiria respeito à Bandeira e ao Hino nacionais. Ocorreu o contrário.
A visita foi para se ridicularizarem na vassalagem, “pois não, seu Valque, o que não tiver na lei a gente coloca e se tiver e o sinhô preferir que tire, a gente passa a faca.” Revelou-se tamanho o rebaixamento da presidente e do ministro que a Fifa ordenou pousar em Brasília nesta quarta-feira não mais Blatter ou Valcke, mas o time reserva de técnicos da entidade. Enquanto aqui ela gasta seu capital político com faniquitos de Blatter, ele tem mais o que fazer, seguro das Garantias Governamentais assumidas por Lula.
Por causa delas, o Brasil já isentou a FIFA do pagamento de impostos, está lhe repassando estádios e cercanias, criou figuras típicas para tornar criminoso até quem assoviar os jingles da entidade sem ter pago royalties. Tudo isso apenas cristaliza que realmente Orlando Silva é a cara da Copa de 2014: desgastado, sem brilho e exprime uma sinceridade e uma firmeza de compromissos de fazerem Ricardo Teixeira parecer a madre Tereza de Calcutá – que Deus a tenha e que ela e Ele me perdoem por essa blasfêmia.
Por: Demóstenes Torres, procurador de Justiça e senador (DEM/GO)

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