Contra tudo, mas pró-governo
Os manifestantes que vão às ruas em Nova York passam ao mundo, via imprensa e autoridades aqui reunidas para a Assembleia Geral da ONU, a indignação com Wall Street e o que a rua significa. Dizem-se contra tudo, da mensalidade da TV a cabo à ditadura na Síria, das tarifas de táxi aos massacres em Bagdá. Fazem intenso barulho próximo aos repórteres e, pronto, a primavera árabe chegou aos EUA. Conversa fiada.
Combater a política e os políticos, é fazer política, é ser político. Em meio aos de fato independentes, há aqueles que parecem ter acabado de tirar o crachá da repartição. Já se vê a infiltração de governistas, com o interesse de manobrar a massa. Agências internacionais de notícias já entrevistaram dirigentes de sindicatos, associações, ONGs, enfim, militantes profissionais. Tanto que já se desconfia do interesse de Barack Obama. A ideia é colocar os antitudo como contraponto ao tea party, movimento evidentemente ligado aos republicanos.
Na antiga tolice de que conservador não vai às praças, a direita seria representada pelos que gritam na bolsa e os “progressistas”, pelos que berram na passeata. Balela. Os dois lados vivem do capitalismo, com seus defeitos e virtudes, e reclamam literalmente de barriga cheia.
Após mais uma sessão de debates ouvindo lugares-comuns e elogios ao nada na sede das Nações Unidas, participei de uma das manifestações. De perto, nada é normal, inclusive esse mar de cartazes. As diferentes demandas se encontram na esquina, sem comando ou cacique. Como o poder não deixa vácuo, ninguém se espantará se Obama for a Trinity Place, onde fiquei mais tempo, vociferar em oposição ao liberalismo.
Igual aos dirigentes brasileiros: o ministro da Justiça comenta o 1º lugar global em homicídios afirmando ser necessário fazer isso e aquilo como se não fosse o responsável. Não será surpresa se ele, os colegas e até a chefe aparecerem em passeatas contra a violência. Como Dilma Rousseff, também Obama aparelhou os órgãos públicos. A falta de traquejo administrativo o mostra incapaz de tirar o país da crise e, isolado, agiu como Lula: se apegou à turma de aspones, subsídios e programas demagógicos. A diferença é que Lula herdou uma nação estável, em crescimento. Obama pegou o caos, com o discurso de erradicá-lo, e o amplia.
Em meio aos cartazes empunhados no centro financeiro, uma bandeira se ergue, a do conformismo. Ninguém presta, talvez o companheiro principal. A caminho da derrota, Obama viu no ressurgir dos movimentos sociais um passo para os comícios de reeleição. No planeta inteiro, perdeu-se a fé em instituições. Alguns que compram cartolina e escrevem seu antagonismo são realmente puros, mas minoritários. O restante tem domador.
Os governos tornaram dóceis os líderes populares alimentando-os com verbas e contracheques. Infelizmente, é assim nos EUA e onde mais houver street e place em qualquer idioma.
Demóstenes Torres é procurador de Justiça e Senador (DEM/GO), escreve de Nova York onde participa, como observador Parlamentar pelo Senado Federal, dos trabalhos da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas

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