Golpe levou deputado às armas
Ditadura marcou vida do ex-guerrilheiro, que hoje quer reformar democracia
O primeiro assalto a gente nunca esquece - e certamente por isso é que o relator da Comissão Especial da Reforma do Judiciário, deputado federal Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), ainda tem a memória afiada quando o relembra, 31 anos depois. "Foi uma expropriação impecável", avalia, em linguagem da época, uma das primeiras ações armadas de vulto contra a ditadura militar (64-85): o espetacular e bem-sucedido assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí, em 10 de agosto de 1968.
Ferreira estava lá na condição de guerrilheiro da recém-nascida Ação Libertadora Nacional (ALN), a organização dos líderes comunistas Carlos Marighela e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, uma das mais aguerridas na luta armada.
Coube ao então advogado de 23 anos a tarefa de recolher e transportar, num fusca, imediatamente após o assalto, o guerrilheiro João Leonardo Rocha e todas as armas usadas na ação. "Deu tudo certo porque o Marighela era muito exigente na logística", diz Ferreira. "O planejamento foi rigoroso, exigiu muitas viagens no trem, e possibilitou uma ação perfeita, sem o disparo de um tiro", lembra.
Pouco antes do trem-pagador, ele participou, "na logística", de outro assalto ousado - ao carro-pagador da Massey Ferguson, em plena Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros (Zona Oeste de São Paulo). "Simulamos uma blitz, com cavalete, guarda fardado e tudo o mais", conta o deputado, lembrando, com um sorriso nostálgico, o momento tenso em que o guerrilheiro Arno Preiss fez as vezes do guarda, "orientando" o trânsito e fazendo parar a Rural Willys da Massey Ferguson.
Por conta de ações como essa, Aloysio (ou Mateus, um de seus codinomes) foi parar nos cartazes dos "terroristas procurados". "Acreditávamos que era possível trazer o céu para a terra, e que a luta armada podia derrubar a ditadura", diz Ferreira, 54 anos. "Foi um erro monumental, porque desprezamos a organização do povo, que não nos apoiou. Mas me orgulho de ter participado, porque um movimento que sustenta uma utopia é sempre positivo."
Não foi o primeiro ex-guerrilheiro a sentar praça no Congresso Nacional - José Genoíno (guerrilha do Araguaia) e Fernando Gabeira (seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick) chegaram antes -, mas é o que menos relatou a experiência da militância comunista. "Não gosto de posar de herói da resistência, porque outros foram muito mais importantes do que eu", diz.
Paulista de São José do Rio Preto, com pai e avós envolvidos na política, começou a militância em 1963, ao entrar na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a famosa instituição do Largo São Francisco. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro logo depois do golpe de 64 - "foi como se o mundo tivesse desabado" -, na esperança de contribuir para a resistência que não houve. Experimentou uma primeira rápida prisão de dois dias no mês de abril - e depois se integrou à dissidência marighelista que levaria ao rompimento com o PCB e à criação da ALN.
Em 1968, já advogado, Ferreira entrou no primeiro grupo de ação armada da ALN. Era eficiente na logística, o trabalho de levantamento e de infra-estrutura para ações armadas. Um processo nas costas - com risco de prisão preventiva -, a possibilidade de que a polícia descobrisse algo sobre as expropriações, e uma boa desenvoltura no francês foram razões suficientes para Marighela despachá-lo a Paris. Viajou com passaporte falso, em novembro de 68.
Dois dias depois embarcaria sua então mulher, Vera Tude de Souza, militante de base da ALN. "Foi uma época de muita garra", disse a hoje tradutora na Câmara Municipal de São Paulo. "Éramos muito jovens, cheios de sonhos e vivemos uma grande paixão. Aloysio era um idealista com muita vontade de acertar." O plano previa estadia em Cuba, para treinamento de guerrilha, mas a gravidez de Vera (das gêmeas que nasceriam em 69) o fez desistir.
Ferreira foi um dos principais articuladores da ALN na Europa, seja ganhando apoio de intelectuais como Jean-Paul Sartre, seja denunciando as torturas do regime militar ou fazendo a ponte no vai-e-vem de militantes e dirigentes da organização, entre eles Toledo, que algumas vezes hospedou-se na residência do casal. Segundo o deputado, foi passeando com ele no Centro de Paris que Toledo soube do assassinato de Marighela (em 4/11/69, São Paulo), pelas páginas do Le Figaro. Ele próprio também seria assassinado sob torturas em outubro de 70 - fato que marca o progressivo afastamento de Ferreira da ALN e seu desencanto com o método da luta armada. "Esses assassinatos foram bárbaros, cruéis, e me marcam até hoje", diz o deputado, contando que ainda não conseguiu o distanciamento adequado para assistir aos filmes relativos ao período, entre eles O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de seu amigo de exílio Fernando Gabeira.
Encantado com o Partido Comunista Francês - "um partido de massa" -, Ferreira nele ingressa em 1971, passo que o levou de volta, alguns meses mais tarde, ao Partido Comunista Brasileiro. É nessa condição que retorna ao Brasil em 1979, com a anistia, separado de Vera desde 77 e já então com sua atual mulher, Jussara Freire (mãe de seu filho de 15 anos).
Filia-se ao MDB, elegendo-se duas vezes deputado estadual (82 e 86). Foi vice do governador Luiz Antônio Fleury (91-94) e, em 1992, candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo (vitória de Paulo Maluf). Em 1994 foi eleito deputado federal pelo PSDB - e reeleito ano passado com 83.600 votos. "A luta de hoje é para aprofundar a democracia e melhorar o país. É muito mais fácil reformar a democracia do que derrubar a ditadura no tapa", acha o ex-guerrilheiro.
Sob o comando de Marighela
O assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí foi uma ação relâmpago - dois minutos, segundo jornais da época. Três homens armados renderam o condutor e levaram três malotes com NCr$ 108 milhões, moeda da época, dinheiro suficiente para o pagamento de todos os funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Um dos homens puxou o freio de emergência e todos saltaram, correndo para dois fuscas que os esperavam, um deles dirigido pelo hoje deputado Aloysio Nunes Ferreira.
A ação consolidou a entrada da ALN na luta armada contra o regime militar. Há quem diga que Carlos Marighela participou do assalto, mas tanto Ferreira como o ferroviário aposentado Francisco Gomes (outro participante) negam. "O Marighela comandou todo o planejamento, mas não esteve no trem", diz Gomes, à época funcionário da estrada de ferro e figura fundamental no levantamento preliminar do assalto.
O líder da ALN não se contentava com informações de segunda mão. "Ele ia lá, conferia pessoalmente, media as distâncias com aquele pezão", conta.
Gomes estima que pelo menos dez militantes participaram da ação, dentro e fora do trem. Dos cinco que embarcaram, três nomes estão certos: Virgílio, Markito e João Leonardo. Os outros dois continuam a ser um mistério. Do lado de fora, além de Aloysio, estava o guerrilheiro João Abi-Eçab, motorista do outro fusca da fuga. Eçab morreria meses depois, em acidente de carro do Rio de Janeiro. Pouco antes, havia assaltado com Marighela um posto de gasolina.
Fonte: Luiz Maklouf Carvalho - (Jornal do Brasil - 04/03/99)

0 comentários:
Postar um comentário