Guerra ao tráfico e à corrupção
O Conselho de Segurança da ONU, ao qual o Brasil deseja chegar perdoando dívida de déspotas, surpreende quem acompanha suas reuniões. O susto é com a baixa qualidade das discussões. Quem espera melhor nível se assusta com o festival de lugares-comuns. Nos debates de quarta-feira, quando o tema foram aspectos gerais da segurança nos países recém-saídos de conflitos armados, apenas os EUA apresentaram medidas à altura do problema. Ao saírem do front, os estados têm de reconstruir tudo, dos prédios ao aspecto psicológico da população. Em meio a isso, reina o caos, a guerra continua para a população civil. A paz é inalcançável com discurso, como sabem os membros que preferem exercícios verbais.
Susan Rice, representante americana, foi a mais interessante. Pregou a reformulação do sistema de segurança, ressaltou a contribuição a nações e mantém os olhos bem abertos com a frouxidão penal, essa praga que tomou conta do Brasil. Segundo Rice, tem de apertar o cerco ao crime desde as alfândegas, combater com dureza o tráfico de drogas e armas e jogar pesado contra a corrupção. Estabelecer parâmetros concretos, acabar com ações aleatórias.
Rice e outros concordam na criação de um marco para segurança, como se pretende para o meio ambiente. Colaborar nas finanças, ser parceiro, mas estipular metas e cobrar cumprimento, sob pena de sanções vigorosas para países e dirigentes. Fomentar o desenvolvimento, mas obrigar a prevenir e punir. Enviar benefícios, mas exigir planos reais de reduzir índices de homicídios e estupros.
Às vezes, a leniência ocasiona vergonha mundial, como o sequestro por piratas na Somália. Levar um navio imenso de alto mar até a costa é o retrato da falta absoluta de controle de um país que recebe ajuda e não se ajuda. Sobraram palavras bonitas sobre pacificação e respeito às peculiaridades de cada pátria, esquecendo-se de que algumas consideram normal, por exemplo, o desrespeito à mulher.
A China, vizinha e protagonista de encrencas, prefere a conversa mole de mediar, evitando imposição “de fora para dentro”. A Alemanha lembra conquistas como eleição livre e estado democrático de direito e sugere a União Europeia para acompanhar as restaurações. A Rússia saiu do comunismo, mas o comunismo não deixa a Rússia: fala em autodeterminação dos povos e soberania, mesmo com cleptocratas dirigindo lugares que reivindicam recursos.
A Bósnia-Herzegóvina, vítima recente de bombardeios, defende que as nações têm de se erguer com participação internacional. Enfim, de todos os lados chegou o consenso: é impossível fazer segurança sem dinheiro e é inútil mandar verba para ladrões. Ser bom, sim, mas não ser trouxa em matula de malandro.
Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM/GO)

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